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Você tem medo do tarô? Te conto minha história e talvez isso mude.

O medo dos oráculos, penso, vem dos tempos em que eles eram voltados mais comumente para predições de futuro. Como não ter medo de alguém que diz enxergar o que você mesmo não vê e que ainda por cima pode te avisar sobre dores que você, adiante, fatalmente sofrerá e contra os quais nada pode fazer?

Eu já li dessa forma, na linha “Madame Soraya”. Joguei com o baralho comum a partir dos 12 ou 13 anos, tirando literalmente “do nada” os significados de cada carta, evidentemente sob a ótica adolescente, mas fazendo predições. E acertava, senão todas, a maioria. Parei aos 18, justamente porque não vi sentido nessa forma de leitura. Ao me deparar com uma dessas predições terríveis, muito específica, que se comprovou adiante, porém sem que eu nada pudesse fazer para impedir, concluí que era uma coisa muito imbecil para se fazer na vida. Adiantar a angústia? Para quê, se não servia para minimizar ou impedir o evento doloroso? Quebrei um tremendo pau com o Invisível e parei de ler.

Conheci, nessa época, uma senhora que jogava búzios e literalmente via flashes do futuro. Minha vida girava entre literatura, psicologia e jornalismo e eu romanticamente sonhava em ser escritora, mas ela me disse (dentre outras coisas): “Não. O que eu vejo, eu não sei o que é. Mas vejo televisão e gente, muita gente. É isso aí: televisão e muita gente. Escrever? Mais tarde, beeem mais tarde”. Um ano depois, sem que isso jamais tivesse sido uma opção antes, eu me vi trabalhando numa produtora de cinema publicitário, em seguida virei produtora de elenco e foi com isso que trabalhei durante 30 anos. E, sim, “televisão e muita gente” é uma excelente, sofisticada até, visão “nostradamiana” sobre quem faz produção de elenco para comerciais de tv. Era algo tão distante de seu mundo que ela não teria como inventar e, além disso, algo que não serve para qualquer um (e não existiam computadores, Google, nem facebook para ela xeretar, é bom lembrar…). E, sim, escrevi ao longo da vida, mas só fiz um livro inteiro e o apresentei ao mundo por volta dos 50. Ou seja, realmente “beeeem mais tarde”.

O que aprendi de fundamental com essa experiência, e que fui comprovando, é que o dom dessa senhora é raro, muito raro mesmo. A gente tende a ouvir o que quer e, em geral, quer que o cartomante acerte, então tende a dizer “Ah, fulan@ acertou tudo!”, mas não é a real. Eu tenho mente e ouvido críticos e sei, na pele, o que é prever algo realmente, então frases vagas não me convencem. O cerne de um acerto de previsão mora em palavras-chave. Limpe os rococós que servem para qualquer um, areje o que vem sujo pela mente racional e fique com o que soa feito oráculo grego, mesmo que você não o entenda. Se isso se comprovar adiante, você encontrou alguém que tem esse dom. E, ainda assim, o dom é instável, ele pode aparecer claramente numa consulta e não se apresentar em outra. Isso não é culpa de quem leu. O resto de nós apenas lê um instrumento que demora tempo paca para aprender e que se continua a estudar vida afora, feito aprender chinês ou alemão. E bateção de carteira é fácil de perceber. É aquele povo que diz “Vejo você rodeado de forças do Mal, mas posso dissolvê-las por meros trezentos reais” (ou mil, sei lá). Forças de todo tipo, se e quando agem, tem potência mesmo é internamente e não são “desfeitas” só porque você paga alguém para desmontá-las, assim como neuroses e afins psíquicos não “se resolvem” apenas porque você paga seu analista.

Conheci, nas andanças esotéricas, uma outra mulher, que lia do jeito mais louco que já vi: usava uns 4 baralhos diferentes, todos misturados, e ia colocando rapidamente cartas sobre a mesa, ao mesmo tempo em que falava sem parar. No meio de tanto blablablá, de repente ela enxergou, sem eu abrir a boca, com riqueza de detalhes, uma experiência minha passada, extremamente maluca e dolorosa e que absolutamente não é comum. Porque aquilo ainda vibrava dentro de mim, ela a viu em destaque. Seria inútil se ela apenas a descrevesse, mas, ao vê-la, ela também enxergou a razão de eu tê-la vivido. Não dissolveu a dor, mas me deu amplidão para lidar com a questão (e isso, sim, foi dissolvendo a dor). Quanto ao que ela viu no futuro, não poderia ter errado mais. O risco está em que, por “acertar” tão bem algo que já foi, o cliente tende a engolir o que ela disser sobre o futuro sem questionar, mesmo quando essa predição não acontecer. O dom genuíno e luminar dessa cartomante está na clarificação do passado, um dom raro e belo, mas que não atrai os clientes que querem o prêt-à-porter do viver. Não seria seu melhor marketing e todo mundo tem condomínio pra pagar, ok, dá para compreender.

Por volta dos 28, num dos meus surtos do Arcano Zero (é o Louco, tá?), larguei o que fazia e fui ser secretária numa escola de Astrologia. Aprendi direitinho o básico, até a hora de estudar mais adiante. Fiz o que pude, mas aquela coisa de sextil, quincúncios e conjunções me dava sono. Aprender aquilo destruía o que eu tinha aprendido antes. Eu olhava um mapa e sacava coisas; pescava coisas. Eu entendia Marte e Vênus, Saturno e Urano, tudo ok: eram como pessoas que eu reconhecesse. Apaixonei-me por Quíron e pela Roda da Fortuna, até, mas semissextil crescente… please. Meu mestre forçava a barra. Astrologia não era coisa de cigana de rua, para ficar “pescando” coisas, oras. Ok, mas então eu me desinteressei.

Na mesma escola começou um curso de tarô, eu ouvi um pouco e percebi que havia outra forma de usar as cartas. Não era obrigatório prever o futuro! Era possível ter um outro olhar, um olhar para dentro e não para fora. Um olhar que podia nos ajudar a entender que forças psíquicas estavam agindo e como lidar com elas – aqui e agora. Fiz o curso, encantada, e nunca mais parei de estudar essa ótica tão bem apresentada no livro “Jung e o Tarô”, de Sallie Nichols. Também nunca mais consegui deixar de intuir, na vida prática e nas pessoas, a presença dessas vibrações. E pude somar a isso o meu jeito de ser e de ler, intuitivo, pescando coisas, sacando coisas.

Eu nunca faço predições? Mentira. Para mim, existem certos pontos que se apresentam pré-desenhados na mandala da pessoa. Às vezes eles são claros e, se ajudam o cliente, faço predições sim. Mas só alerto para coisas complicadas se enxergo, na leitura, que é possível agir para minimizar isso, mesmo porque aprendi a bloquear as predições de outro tipo.

O meu foco é no resgate da confiança, na recuperação da energia, na renovação do entusiasmo, na reestruturação do amor incondicional por si mesmo e pela vida. Eu olho o ser presente somado ao que vem logo ali, mas um “logo ali” sempre em decorrência do que escolhemos agora. O passado precisa de adequação, precisa ser integrado à condição psíquica presente e posto no seu devido lugar, mas ele já foi, não podemos mudá-lo. Se o tarô me apresenta essa possibilidade, ótimo, ajudo a adequar esse passado. Já o futuro é feito da soma das nossas escolhas e do imponderável. Se não podemos mudar o mistério do imponderável, podemos reaprender a escolher os passos que damos agora e podemos entender quando é hora de pilotar, quando é hora de copilotar e quando é hora de apenas se deixar levar.


O cerne do medo de procurar as cartas está na permissão da visita. Ao procurar um oráculo estamos permitindo que alguém nos veja para além da persona, do escudo da fachada. É ficar disponível a que outro possa ver nossa dor, nossa alegria, nossa ingenuidade, nossa malícia, nossa luz e nossa sombra. Como tantos temem a psicanálise, acredito que o medo instintivo de que nos vejam por dentro vem do medo da rejeição, ao sermos vistos como integralmente somos.

O que acredito que o público que desconhece o estudo esotérico precisa saber é que um bom oraculista não julga. Quem estuda isso a sério, ao menos na hora de ler, coloca-se acima dos julgamentos moralistas terrenos. Do meu tarô, ao menos, eu garanto: você não vai receber lição de moral, não vai ouvir que erra porque é uma besta quadrada, nem que o momento ruim que eventualmente esteja vivendo não tem solução e azar seu. Do meu tarô você vai receber clareza para entender o que está havendo, como você está se colocando diante de xis questão, o que você está esquecendo de cuidar, o que está te favorecendo e que você pode alimentar, que sugestão de caminho o tarô te dá e para que lado a coisa tende a ir, dependendo do que você decidir escolher. Mas também vai aprender a escolher com base em algo seu realmente importante, em vez de apenas patinar no eu-quero-porque-eu-quero.

Além disso, na maior parte das vezes, também vai acabar rindo bastante, porque eu sou essencialmente irreverente, naturalmente amoral, instintivamente acolhedora e porque acredito no riso como ferramenta luminar.


E agora, depois disso tudo, perdeu o medo e quer experimentar?

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Ivana Mihanovich
Taróloga, escritora, jornalista, publicitária
http://tarotluminar.blogspot.com.br/

About Receitas de Viver

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