Home » Sem categoria » TERÇA FEIRA GORDA

TERÇA FEIRA GORDA

Minha preta velha, fechara-me o corpo com rezas e banhos de sete ervas. Conhecimentos que herdara da mãe dela, que herdara da avó, que herdara da bisa, que herdara da tatará.

O intuito da novena é a de proteger-me dos espíritos sombrios que me assolariam em minha estada em terras ditas santas, dezenas de sete anos se passariam, após minha mãe tecer a benzedeira pra cima de mim.

Cá estou eu, cumprindo meu papel junto aos meus, cumprindo minhas luas em terra que remontam a meus genes.

Rogando ao meu orixá as sete armas necessárias para apaziguar-me entre os amigos conquistados ao longo dos séculos, assim como aos inimigos que irracionalmente os colecionamos! – a comunicação e a paciência, os desígnios, a ordem espiritual e terrena e o sexo, e o nexo e o plexo.

Assim, declarou seu, Sete.

Pois serás de agora em diante o senhor das aldeias, cidades, casas guetos, malocas, palhoças e do axé! – e de todas as coisas que são feitas Orum ou Aive.

Passara sobre a terra e, talvez, possa ser sua ultima estada após as tantas outras. Mais, este dia não… Hoje é o dia de “mardi gras”. Festejai, copulem, se misturem, fundem se, e sentiras que se não as matas!  Fortalece-te, assim como, agita lhe  os genes.

Já portava as cores típicas da data estampadas em minhas vestimentas: o dourado ressonando em minha pele de âmbar, beleza e poder; o verde, que significa fé; e o roxo, que justiça é, são as primas cores em nosso arco-íris! Não, não são as únicas. Há também a música e a dança, o júbilo e o sonho.

A comida farta jazia sobre a longa mesa montada no jardim. Ao lado do altar das dádivas, montara as mesas para os convivas.

Ao largo a pista de dança e do palco pra banda blusear-se até antes do desjejum ritual do tempo quaresmal que se aproxima. Após este dia, se dará as cinzas.

A fogueira ardia ao centro de tudo, de onde emanavam sussurros e calores inebriantes. Havia também folhinhas cannabaceae, salpicadas de vozes celestiais respingadas pelo vinho tinto.

Entorpecido, azucrinado e trôpego, saio como se uma epifania houvesse me ocorrido.

Caminho rumo ao vão escuro que se abre aos becos por onde uma luz brilhantemente presente de repente tensa.

De olhos fechados tento como um tolo me apoiar nas ondas das possibilidades plenas de tão pleno, de tão ébrio de tão cego, sigo.

Apalpa-me com inseguras mãos finas as paredes do inconstante.

Na busca do eterno. Acaba por ver sua trilha grafada ao longo do percurso corso.

Vejo-me sem fôlego. Falta-me o verbo, falha me às narras simples. Perco-me por acordes dissonantes e rudimentos improváveis.

Enquanto a fila se agiganta por todos os lados, todos dançam ao groove da banda que nos sugavam.

Hoje é dia de Mardi Gras! É dia de carnavalizar com os confrades e as comadres até os derradeiros raios solares antever a quarta feira de cinzas.

É dança, canta e trepa; Como hereges, sem pecados, sem noção sem eira e nem beira. Na noite que se aprofunda a terça feira gorda.

Que se expandem as horas e consumam a consciência, a dialética, a ética e a belezura que se abre ao ultimo canto do carnaval.

Aos passos trôpegos bêbados e equilibristas que adentram o reino das possibilidades plenas e tão bem conscientes de sua quase incapacidade de lidar com as etéreas coisas, Tipo; – tempo espaço, largo, profundo… Raso.

- Vejo-me sem fôlego. – Falta-me o verbo, falha me à narrativa simples. Perco-me por entre acordes dissonantes e rudimentos improváveis.

Caminho mais um pouco, já sem ar deixo me estar extasiado. Sem medo contínuo a tropeçar-me entre cristões e hereges. Caminho muito mal por caminhos tortos e trilhas acidentadas!  Vivo aos esbarrões!  Uma “bluenote” atravessa-me a alma.

Ninguém a procuraria em meio a tantos rudimentos, porém! Ninguém fica normal quando embaralha se nos corpos de fusas, fundem-se as semifusas, assim como, se confusas demais.

Ele rosna, ela mia, eles fazem direitinho toda aquela… Festa! –  Que medo que dá! Não saber onde aquela imensidão sente quão ausente o imensurável se dá.

Ele roda, ela pula, eles fazem requebradinho. Finda se o improvável. A carne vale cada rosto, cada bocado de gozo, todo o pecadilho cometido na terça feira gorda. Amanha?! Ora-se! Guarda se as cinzas e conta se as horas.

 mario

Mário Inácio de Oliveira, empresário, poeta e observador comportamental.

About Receitas de Viver

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

BIGTheme.net • Free Website Templates - Downlaod Full Themes