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SINTO ME BEM – Capítulo I

Exatamente as 7:30; – O despertador cumpria sua função. Abri os olhos tateei por entre os lençóis retorcidos em busca de um local que pudesse interromper aquele “I Feel Good” por debaixo de um travesseiro sob minha cabeça. Os “JBs” resolveram me atacar em quanto atravessava à linha que divide o mundo do despertar e o do sonho.

O groove parecia repercutir as palavras ditas enquanto sonhara.  E a melodia somente gabação.  Abrir os olhos seria mera piscadela à vida sem graça que tinha por vir.

Meus dias assemelham se em nada em relação aos sonhos que tenho. No sonho tudo é monocromático! Na vida! Tão colorido que me insegura.

No aqui e agora o chicote arde.  São os açoites repicando no couro que cobrem dita alma. Talvez nos sonhos sejam elas, as almas, vivendo suas vidas a parte da nossa. No dia a dia a alma se torna cruel de cru, a cozinhar sob o flamejante Sol e o vapor aquoso sem cujo qual, nós, seres humanos não sobreviveríamos. É a união da alma com o corpo que nos encarna o osso e faz ir em frente este ser <sonante>.

A semelhança entre os dois mundos são somente as aventuras. Em ambos, tanto no aquoso como no gel das almas com sua monocrática e impenetrável luz. Onde viver é uma aventura todo dia, assim como sonhar é uma aventura toda a noite.

Perdia-me nos vagações, embora agora mais diluídas com a realidade colorida do dia que anunciava com espanto o tic tac do metrônomo…digo; relógio em cima do criado até então, mudo.

Estava me sentindo atrasado em relação à entrevista de emprego que tinha marcado. Se bem que me lembre, esta, estava marcada para as 8:45: – Mas era no outro lado da cidade e considerando que estava no centro e ainda na cama. Era melhor se apressar.

Era tempo de tomar um banho e a barba que há muito não recebia cuidados, o faria durante o banho.

Levantei e me pus a preparar a toalete, e por um momento que pareceu uma eternidade me veio à dor no pé do estômago lembrando-me que, da ultima refeição, só sobrou à lembrança. Já estava quase que me acostumando a viver de lembranças.

8:48 – Cheguei a entrevista; – Meu nome é Jorge da Anunciação, eu tenho uma entrevista as 8:45 com o doutor Darcy. – Doutora Darcy! E desculpe; o senhor está atrasado Sr. Jorge, não sei se a doutora poderá recebê-lo.  – Disse-me sem tirar o rosto bonito e queimado de sol do espelhinho, à secretaria que retocava a sombra sobre seus olhos azuis, só levando em consideração os três minutos de atraso, que significava a perca de meu possível emprego.

Fazendo com que meu estomago unisse se ao fígado e juntos criando uma fúria comportada no meu sempre cínico trato a rejeição. E com um movimento atabalhoado, fiz com que ela olha-se para mim, embora isto lhe tenha causado um manchado que ia dos olhos a maça do rosto, lhe sorri e falei com minha voz de barítono que nada havia dito até ali. – Peça desculpa a ela! E diga por gentileza, que o transito de Sampa nunca fora tão generoso para comigo como o de hoje. Atrasando-me somente três minutos?! Cujo tempo não se faz conta de atraso e sim a má vontade de sua parte.

- A Dra. Darcy… – Está com outro entrevistado, que, por sorte do transito chegou aqui as 8:00, mesmo o horário dele ser marcado para as 9:00. Talvez este, não considere a generosidade de um transito como o de “Sampa”. E sim, vontade?! – Me disse a bocuda da secretaria seriamente maculada pelo meu nada sutil jeito de chamar- lhe a atenção.

Eu espero! – Disse ainda tonto pelo jab direito/esquerdo no pé do fígado. Mas fiquei em pé com dignidade e certo que haveria consenso, joguei a toalha. Aquele trabalho me interessava por dois motivos: Sobrevivência e o outro, sobreviver, com o que gostava de fazer. Desenhar era para mim quase que uma compulsão, um vício! E este trabalho me proporcionaria isto, viver de vicio.

- Eu vou avisa-la que o Senhor está esperando; – disse-me a secretaria de sombras delineadas discretamente sobre olhos azuis e boca vermelha de batom.

– Obrigado! E, desculpe. Não tive a intenção de borrar sua maquiagem – Agradeci eu, ainda amaciando o ficado e acariciando o estomago que, insistia em seu ronco cada vez mais agressivo.

- Temos uma espera no jardim, logo ao lado da copa e sanitários. Eu te aviso quando for sua vez. Falou-me a secretária que não abriu sequer um sorriso mesmo que falso.          – Oquei! Respondi, com um sorriso idiota e um suspiro de alívio.

Dirigi-me ao jardim interno enquanto me sentava em um banco de pedra em frente à porta e ao espelho d’agua pequeno, mas, refrescante. – Um rapaz vestido como garçom de seriado de TV apareceu do nada como se tivesse escondido por de traz das primaveras, samambaias e rosas brancas grandes e cheirosas, me oferecendo um expresso, mini brioches e um copinho d’agua com gás que aceitei. Oxalá me sorria novamente.

A guerra no meu estomago agora menos letal, já acenava com uma trégua mesmo que por hora. Acendi um “Luck Strike” (o penúltimo dos moicanos), e o traguei furiosamente antes que alguém aparecesse das sombras com cara de nojo e mandasse dar fim naquele prazer fétido e indecoroso. Mas… Ninguém apareceu.

Sonhar me fez perder o horário, não sei se o sonhar, mais, ficar pensando nele. Mas a conclusão é que talvez possa perder até o emprego que tanto preciso. É sempre assim, toda vez que ela (a personagem do sonho), pinta eu perco alguma coisa ao despertar, por que será? Será que estou me apaixonando por ela?!

- A doutora vai recebê-lo. O Senhor aguarda mais um pouquinho. Aceita mais um cafezinho? – Aceito sim, obrigada.

O cafezinho que me apaziguara o estomago antes, bateu como uma bomba, no já instável estomago, desencadeando uma brutal batalha nos intestinos e, eu ali, sem saber se a secretária, lá do outro lado do espelho d’agua e o garçom, escondido em algum lugar no jardim, ouviam o que se passava no interior de minhas tripas.

Levantei-me vagarosamente e me arrastei feito lesma sob um suor frio e, quando chegava à porta do toalete a secretária de sua mesa acenou-me para que aproximasse, e experimentei neste momento o tremor da insegurança e a vertigem que divide os nativos de libra.

A porta se abriu e uma descendente de oriental, jovem, com uma pasta de couro e um tubo de desenhos nas costas, saia com cara de insatisfação e ar de preocupada e levemente afetada com seu jeito “nerd” de ser.

- Vera?..  Peça para que o arquiteto Jorge da Anunciação entre e, uma agua e dois copos, por favor; – Ouvi uma voz firme autoritária porem docilmente pronunciada. A secretária faz cara de prontidão, e, levantando rapidamente tomando-me a frente, que fez por um segundo, esquecer-me dos intestinos ao ver seu vestidinho mover se até as cochas bronzeadas e o cheiro de maçãs verdes que exalava de seu cabelo negro e liso.

Dirige-me até a porta entreaberta e fico deveras preocupado ao ver minha entrevistadora. Ela pede para que eu me sente, e, de cabeça ainda baixa a verificar uma serie de pastas e folhas impressas. Sem nem se quer levantar os olhos para ver quem estava a sua frente, foi logo dizendo; – Vejo que o senhor é formado há bastante tempo senhor Jorge! E de lá para cá, trabalhou em três escritórios de bom calibre no mercado. No último chegou à gerente de projetos?!..; – É isso aí; – Disse eu preocupado ainda mais com o desempenho de nosso primeiro contato. Senti que não teria a mínima chance de conseguir um tempinho para ir aliviar-me. Senti que o meu; “é isso aí”, saiu um tanto ansioso e, convenhamos, ansiedade e entrevista apavora qualquer um.

Acho que um suor frio escorreu-me o sovaco enquanto tentava me centrar e esquecer minha real situação. Ela levanta as vistas por detrás dos óculos e me espreita feito onça, aguardando minha resposta diante de minha demora em responder-lhe.

– É, fui gerente por oito anos. – Disse isto com todo o cuidado de não parecer pomposo. – E, por que saiu deste emprego senhor Jorge? – A crise, foi o que me disseram. – Bom senhor Jorge; – Ela levanta a cabeça e me olha nos olhos com certo encanto, porém desafiadora. Apoia a pasta que tanto lhe prendia a atenção por cima da mesa de mogno e aço escovado. Encosta no espaldar da cadeira de grife e me pergunta com leve irritação, sem saber ainda do enfezamento por qual eu passava.

– Veja bem Sr. Jorge! O cargo ao qual é candidato é de Projetista! E o salário é abaixo do que o Sr. recebia a oito meses atrás?! O senhor percebe que… – É eu sei, foi como me disseram… É a crise! – Respondi com ar de sei lá o quê e ainda lhe olhando aos olhos para que não sentisse que estava a ponto de escapar dali em busca de quatro paredes e uma privacidade. – Ela piscou rapidamente ainda meio incrédula que eu a tinha interrompido quase que mal educadamente. – Mais o senhor não prefere ver outro emprego?! Sei lá…um que pague pelo menos o mesmo que recebia?! – Doutora Darcy…; – interrompi novamente já sem a paciência de pedinte. – está difícil emprego de qualquer que seja o cargo! Temos de nos agarrar ao primeiro que nos aparece! E além do mais com a crise diminui drasticamente meus custos.

– Ela sorri ao perceber que algo me incomodava. Acredito-me, pois, naquele momento já havia perdido todo meu poder de interpretação, e meu sorriso era sofrível. – Bom, continuou ela; – o senhor é quem sabe das suas necessidades. – O meu é de prefinir para que os colaboradores desta empresa saibam de suas obrigações contratuais para que não venham reclamar futuramente de clausulas não discutidas.

- Dra. Darcy; – Disse eu, fracamente e totalmente dominado por dormências e calafrios constrangedores quase que beirando a adolescência e a idiotice chegando à demência!

CONTINUA.

mario

Mário Inácio de Oliveira, empresário, poeta e observador comportamental.

Foto de abertura: RENATO DE SOUZA – COPAM VISTA

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