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SESSÃO DE TERAPIA – Picasso

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O homem entra na sala enquanto a terapeuta lhe espera com uma xícara de chá recém-preparada, repousante sobre a mesa: Um chá inglês recomendado pelo seu próprio cliente… “Um dos seus favoritos!”, como ela mesma dizia vez ou outra.

- Boa noite… Gostei da boina. Como foi a semana?

- Intrigante. – Diz ele enquanto senta. – Picasso! – dando um peteleco no chapéu.

- Está se referindo ao pintor? – Ele acena positivamente com a cabeça. – Pois bem… – Encostando-se na cadeira, cruzando as pernas e mexendo o chá.

- Já lhe falei que há alguns anos eu pintava, não é?

- Sim… Comentou algo sobre isso.

- Pois bem… Acabei abrindo novamente minha boca grande e uma belíssima mulher que conheci, me pediu para pintá-la.

- Que interessante! – acomodando a xícara na mesa.

- Nua.

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Ela apenas o olha fixamente conotando certa surpresa ao levantar uma de suas sobrancelhas.

- E como foi a experiência? Digo… Você aceitou e, se sim, como se sentiu com a experiência?

- Seria muita pretensão dizer: Deus?

Ela deixa escapar um leve sorriso.

- Antes de dizer isso, preciso lembra-lo que me disse certa vez que não possui uma ideia formada sobre “Deus”…

- Oquei… Me pegou! Tive uma catarse nessa experiência… Uma iluminação, epifania… Seja lá qual o nome que isso carregue. Acho que experimentei na pele um pequeno momento em que encarnei Pablo Picasso

- Continue…

- Todo aquele pensamento sobre cubismo, saca? Creio que tenha a ver com a quadridimensionalidade das coisas, quero dizer: ver as coisas em vários ângulos diferentes de uma mesma perspectiva…

- Hum… Ainda não capitei.

- Já viu alguns quadros cubistas de Picasso, não é?

- Sim… Conheço, não profundamente, mas… posso dizer que sim.

- Pois bem… Lembro-me que era uma noite chuvosa e que, antes de ir para o apartamento dela, passei em algum lugar pra pegar uma garrafa de vinho… Escolhi uma boa garrafa, pois tinha que ser também do gosto dela… É uma mulher exigente.

“A Garrafa de vinho era como um terceiro elemento na história, visto que, quando eu cheguei, ela já havia aberto uma e estava levemente entorpecida. Uma música inebriante vinha do outro quarto e eu gostei do que ouvi. Conversamos um pouco e ela me serviu do vinho branco (gosto mais dos tintos) já aberto enquanto, coberta por um lençol que denotava claramente a sensualidade das suas curvas, parecia ficar cada vez mais à vontade, visto que eu estava claramente concentrado no que havia proposto a ela: Pintá-la sem me envolver.

Esse parecia ser o temor dela: que de alguma forma eu me deixasse levar pelos instintos e incitasse algum tipo de comportamento que transpusesse seus limites… Eu estava certo do que estava fazendo, e faria o meu melhor para continuar pintando… Talvez me recomendasse mais mulheres para trabalhar, sei lá… Tudo dependia de manter-me concentrado para que ela se sentisse bem, o que não é uma tarefa tão simples, dadas as condições, não é mesmo?

Pois bem… Misturei as tintas e comecei a pintar como se fosse a minha primeira vez. Pouco à pouco ela foi se descobrindo, revelando seu corpo enquanto tomávamos mais e mais vinho. Foi então que as coisas começaram a sair do “normal”… Poderia jurar que enquanto ela se virava de costas, ainda podia ver seus olhos negros me olhando como se estivessem de frente para mim.

Foi uma sensação estranha, pois via claramente que estava de costas, mas, mesmo assim, me olhava nos olhos e sorria… Eu nem mais sabia que mistura produzir para imitar seus cabelos, ora loiros, ora castanhos… Podia ser o efeito da luz, pensei. Não sei se já ouviu falar daquela deusa Sarasvati, hindu… De quatro braços? Pois é… Minha pintura cubista estava tomando proporções indescritíveis e eu não mais podia discernir o real do imaginário… E olha que não havia consumido ainda nem uma garrafa inteira.

Foi realmente uma coisa de louco, por isso estou aqui e não no boteco… Até seu cheiro eu posso descrever agora se quiser, pois pude pintá-lo através de uma mistura simples de cores. Tudo era bem palpável, pois veja: é preciso muitas vezes sentir a textura da “coisa” em si para relacioná-la com as cores certas… Sentia suas pernas macias escorregarem em minhas mãos.

Pode me dizer que foi efeito do vinho, pois estava vendo tudo em dobro: podia jurar que havia duas mulheres ali, mesmo que não pudesse desassociá-las uma da outra. Acho que era isso o que Picasso, aquele filho da mãe, fazia para revelar tantos lados da mesma moeda… E ainda colocaram Maurice Utrillo como o louco da história.

Por fim, passei toda a noite ali e me lembro do Sol nascendo através da janela: uma vista e tanto. Ela ficou ali alguns minutos olhando e admirando a pintura… Agradeceu-me pelo bom trabalho e se vestiu. Podia estar louco, mas juraria que escutei alguém no banheiro: chuveiro ligado, água escorrendo pelo corpo, e pingando disforme no chão… Estava exausto.”

***

Ela permanece em silêncio por um instante até que finalmente ele tomasse a xícara morna de chá em suas mãos.

- Interessante… Terminou a história?

- Creio que sim.

- Posso fazer algumas perguntas?

- Claro!

- A tela que usou para pintar, as tintas… Me explique melhor sobre isso: já estavam lá; você as carregou do carro…?

- Oquei, você me pegou: A parte da pintura eu inventei.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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