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SEM FRONTEIRAS – mármore

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Seus olhos eram mármore: esbranquiçados e fixos, fitando-me de longe. Não pude deixar de notar seu esforço ao se virar, vagarosamente, na cama… Sutil e vagarosamente… Isso tudo para evitar dar conta da dor que te consumia por meses (anos, séculos) a fio. “Deixe-me sonhando na cama, vejo você de volta aqui amanhã…”, dizia a canção… “Tudo bem, mulher… Isso tudo algum dia passará… Esteja certa disso.” – sussurrei enquanto dedilhava alguns acordes vagabundos de tão simples, mas que, por fim, era tudo o que tinha para dar além do som constrangedor dos monitores cardíacos.

 

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É como num primeiro encontro… Não se sabe o que transcorrerá após o primeiro “olá”, seguido de uma indiscreta troca de olhares tragado por um pequeno lamento. Lembrei-me da juventude, dos momentos em que me aproximava das jovens e ávidas garotas com o único fim de acalentar meu próprio ego – satisfação puramente psicológica -, ao passo que, orgulhoso, atacava algumas cordas soltas no violão os quais gerava um efeito inconsequente o qual muitas vezes eu mesmo não era capaz de dar conta.

É uma sensação estranha estar do outro lado do espelho nesse momento, momentos eternos em que sigo pelo corredor, entre os sofredores, rumo ao seu olhar pedante, ansioso por algum tipo de acalento ou misericórdia… “Eu cortejo a morte antes de dormir… Todas as noites…”, disse ela enquanto eu buscava em minha mente alguma história bonita para contar ou algo que pudesse tecer qualquer sentido… Até me deparar com a realidade crua de que não se tratava de mim, mas dela, não mais como antigamente: desejo, cortejo, hormônios… Mas apenas dor, desesperança, impotência e sussurros.

Realmente os dias não eram como outrora… Hoje sou capaz de algum tipo de complexidade, poesia, filosofia barata e até algum saber inútil, vez e outra, nascido em noites de encontros, vinhos e amigos… Mas não há como negar a minha atração em flertar vulgarmente com aqueles velhos acordes abertos e letras que pouco diziam – embora diziam intensamente – como essa que te ofereci: “Mantenha a cena na sua cabeça enquanto as feridas tornam-se amarelas e o inchaço diminui…”.

Embora naquelas condições: setenta e sete anos, traqueostomizada, hospitalizada há mais de três outonos… Ainda assim era capaz de falar com graça, imponência e destreza. Falou baixo, a ponto de me silenciar eternamente. Todos os outros ali desapareceram momentaneamente enquanto me contava sobre as desventuras e tudo o mais que havia conduzido seu destino até aquele momento. “A vida é irônica… olhe só para nós: embora tenhamos vivido tudo o que vivemos, feito tudo o que fizemos… Veja: todos os caminhos, todas as decisões que tomamos, todas as boas e más escolhas… Tudo nos conduziu até aqui… Exatamente para esse momento.”, disse a ela enquanto seu cenho franzia, inevitavelmente, de dor, ao passo que consentia, esforçando-se para esboçar um sorriso destreinado.

“Eu já disse a você que, por vezes, peço a Deus que finalmente me leve e cesse todo esse meu sofrimento?”, perguntou-me. “Não… Você ainda não me contou sobre isso…”. “Estou sentindo muita dor… Você não pode imaginar o quanto dói. Será que pode me dar algum tipo de medicação?”, pediu-me com dificuldade, “Sim, mulher… Eu posso. Feche seus olhos… Isso é tudo o que posso te dar nesse momento…”.

Ao som dos primeiros acordes parecia que não estávamos mais ali, naquele lugar. Tudo se desfez, como gotas de chuva que escorrem no parabrisa enquanto mantém o pé no acelerador e o som do vento se torna cada vez mais distante ao passo que a escuridão reivindica seu lugar.  Jamais saberei se ela chegou a ouvir minha voz junto aos acordes, fundindo-se a eles… Em uma canção triste que pranteava aquele momento… Um pranto que contornou seus olhos antes de fechá-los em uma canção que já falava sobre ela antes mesmo de ser capaz de conceber a possibilidade de conhecê-la… Antes mesmo daquela tarde, enquanto se virou e me fitou com seus olhos brancos como mármore…

“E se alguma vez você estiver por perto no centro ou nos subúrbios dessa cidade, tenha a certeza de voltar. Eu estarei mergulhando em tristeza, de sobrancelhas franzidas como Pierrot, o palhaço.” Dizia a canção, ou será que foi ela quem me disse antes de finalmente adormecer?

“Sabe… Por vezes eu cortejo a morte e a desejo mais do que tudo… Quando acordo, é como estar em um pesadelo sem fim… Eu já lhe disse isso?”… “Não… Você anida não me contou sobre isso…”.

Enfim…

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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