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SEM FRONTEIRAS – Homem sem face

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- Você está com medo? – Perguntou ao filho enquanto se esforçava para se erguer, em vão, de sua cama.

- Não, pai… E o senhor… Está?

- Jamais, rapaz… Eu, com medo? Eu não.

Ele chegou a se despedir. Falou sobre vida e morte: “Faça o que é certo…”, disse enquanto se ajeitava, “Faça o seu melhor e não deseje mal a ninguém… Livre-se do mal.”. Contou sobre a experiência de, em tempos de crise, se lançar à sorte ao adotar três crianças órfãs de pai e mãe, dentre elas, eu mesmo: “Comíamos pouco, mas comíamos…”, entregando-se, exausto, ao recobrar aquelas poucas lembranças.

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“Ele me olhou direto nos olhos, direto e conciso para me lembrar para sempre fazer o que é certo.”, dizia a canção que me perseguia enquanto aguardava o elevador, rumo a mais um dia… Mais uma experiência a qual, ainda que parecesse, àquela altura, habitual, jamais poderia compreendê-la como “previsível”… Pois nunca é.

No corredor do hospital, não recordo o que toquei como primeira música e nem me importo, pois sempre toco aquilo o que me atravessa. Eles foram se aproximando, taciturnos, cada qual à sua maneira, olhando-me como uma peça única num museu entre atualidades descartáveis. Vagarosos e esperançosos de algo que eu mesmo seria incapaz de oferecer, mas que faria o meu possível para que fizesse brotar dentro deles próprios e em nenhum outro lugar, assim como vez e outra era capaz de fazer valer dentro de mim.

Até que me deparei com aquelas gêmeas: pouco mais que meninas, abraçadas, como que inseparáveis… Misteriosas. Sempre evito perguntar o porquê de estarem ali, talvez porque realmente o que me importa, seja o como podemos nos sentir em tais momentos, simples assim: desatrelado dos rótulos os quais nos colocam; dos números e das estatísticas… Apenas canções sinceras; arrepio na pele e, quando muito, uma lágrima que não se possa conter.

“Adoro música…”, disse ela (uma delas), a qual não saberia distinguir da outra, enquanto sorria (ou chorava). “Quer pedir alguma música?” perguntei, ainda que saiba ser uma pergunta tola, devido ao fato de raramente ser capaz de atender algum pedido… “Toque o que você quiser.”, disse ela… E toquei: lembro que roguei para que, dentre tantas canções, surgisse aquela, capaz de trazer à tona tudo aquilo o que (ela) sentia, de modo a ajuda-la a por para fora (revelando) acerca dos seus temores e anseios… Mas o que se seguiu foi apenas o que dizia sobre mim: sobre meus próprios temores e lamentos acerca do que eu mesmo estava vivendo e longe de conseguir dar conta.

Não importa… O que importa é que algo aconteceu naquele momento: “(…) É o grande momento onde a verdadeira mágica acontece.”, momento onde saio da condição de artista para me compreender em uma posição mais elevada: de ser humano.

Não posso mensurar quantas pessoas estavam ali naquele momento, apenas o que posso dizer é sobre o quanto algumas experiências nos transformam, ainda que de maneira subjetiva, imperceptível a olhos nus: tornando-nos “um milímetro” melhores do que antes de vivermos tal experiência. O engraçado é que alguns ainda me agradecem, quando eu é quem deveria me colocar na condição eterna de gratidão.

- Que Deus continue lhe iluminando para continuar com esse trabalho tão lindo… – Disse ela enquanto guardava o violão.

- Posso lhe dizer algo? Mais que um conselho? – Perguntei.

- Sim, claro!

Naquele momento, lembrei-me das palavras do meu pai… Meu pai adotivo, e decidi torna-las imortais:

- O melhor remédio é aquele oriundo das suas emoções, dos seus sentimentos. Procure estar ao lado das pessoas que é capaz de emanar amor, pois o amor é o melhor (e único) remédio. Diga a eles sobre o quanto sente e sobre o significado que cada um compreende em sua vida, em sua existência… Não deixe para quando for tarde demais. Sinta e amplifique isso dentro de você e então, somente então, compreenderá o real significado da frase “livrai-nos de todo o mal”, pois o mal que reside em nós, e não fora, mas em nossos pensamentos… É o único mal capaz de nos adoecer e para tal mazela não há medicina que sirva… “Amém”.

E desapareceu como nuvem sobre nuvem… Provavelmente como um homem comum entre os tolos, capaz ainda de se fazer santo junto às poesias pagãs, ou como ele mesmo dizia (tal qual a canção): o homem sem rosto…

***

Tão silencioso quanto à meia noite, pensava sobre a sua vida. A gata se prostrava, ainda que sonolenta, na cadeira ao seu lado – sua companheira de quietude – enquanto sua mulher (e todo o mundo ao redor) adormecia absorta.

Quanto ao seu pai adotivo (sua única referência de pai), aquele o qual, enquanto doente, chegou a se despedir: teve a permissão de voltar para casa… “Talvez (palavras dele próprio) para reparar alguns enganos.”.

“Na próxima vez que ver aquele rosto, eu direi: ‘Escolho viver para sempre’”… Ainda que palavras apenas não bastem.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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