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SEM FRONTEIRAS – Chakana

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A ironia da tragédia é que, ao mesmo tempo em que separa algumas pessoas, aproxima outras…

Não era a primeira vez que eu encontrava aquele homem entre os corredores e sabia: não seria a última. Ele aguardava um “coração novo” havia pouco mais de três meses… Nossos encontros passavam a ser frequentes e, naquela tarde, ele estava desacompanhado de sua esposa que, normalmente, o fazia companhia.

- Uma pena ela não estar aqui hoje… – Disse ele enquanto se levantava do sofá.

E o ajudei a desconectar da tomada a bomba de perfusão… Só estávamos eu e ele no corredor naquele momento.

- Te acompanharei até o quarto, se me permite…

- Não quero te atrapalhar. – Disse ele caminhando vagarosamente.

- Não será incômodo nenhum… Estou dentro do meu tempo. – Disse, me referindo aos andares que ainda percorreria antes do jantar dos pacientes; antes de seguir meu caminho para casa.

Naquele momento, senti certo alívio em saber que ele e a esposa se felicitavam com minhas visitas e, de sorte, pensei: “Vou escrever sobre isso…”.

Os dias se passaram e eu nada escrevi sobre aquele momento. Não conseguia compreender porque a inspiração me abandonara, visto que havia sido tocado, de alguma forma, por aquelas palavras, mas enfim… Sou autêntico e respeito o que sinto ao passo que jamais me trairei escrevendo coisas apenas por escrever ou para manter o hábito.

***

“Está sozinho hoje?”, disse a atendente do restaurante ao pesar meu almoço, se referindo à minha mulher que, na maioria das vezes, me acompanhava. Devo ter respondido com um sorriso torto… Talvez por preguiça de dar maiores explicações que no fim, sabia: ela estava apenas sendo gentil comigo… Não se importava com isso realmente… Não diante de uma fila que se formara atrás de mim enquanto eu pensava no que responder de forma mais honesta e gentil possível.

Sentei-me numa mesa onde normalmente batia o Sol, mas naquele dia o tempo estava nublado… Mesmo assim sentei onde ela gostaria de se sentar… Por hábito talvez… Ou talvez para dar sentido à minha ida àquele lugar e naquele dia. Foi então que, por algum motivo, lembrei-me daquele homem… Do homem do hospital e da nossa conversa: “tempo perdido”… Disse a ele: “esse é o nome da canção.”.

Todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia… ‘Sempre em frente’… Temos todo o tempo do mundo.” – Dizia a canção. “É um paradoxo pensar que alguém terá que ir para que eu fique”, disse ele enquanto me preparava para seguir para o próximo andar.

- Há uma diferença entre o sofrimento e a agonia… – Disse a ele. – O sofrimento pode ser compartilhado, pois é mensurável… É temporal…

- Pois bem… O meu caso é o segundo. – Disse ele com firmeza atroz.

Ele me explicou sobre suas probabilidades, de forma racional e imparcial, tal qual discorreu um pouco sobre suas angústias. Os caminhos que circundam os quartos ao redor do saguão não são tão extensos para abarcar a história de uma vida inteira, mas naquele momento, vagueei vagaroso, dando conta de sua fúria mascarada em palavras ternas e eternas, certo de que, se a esperança é abrigo, caminhávamos sob a tempestade…

Dissipando meus pensamentos, voltei minha atenção à abelha que desbravava meu prato de comida a céu aberto… Tirei-a ainda com vida e ela se foi incólume.

Foi então que compreendi: não éramos nós, nem eu e nem ele, os protagonistas daquela história… Era a lição. O aprendizado que se perfazia na compreensão de que não temos sentido sem a presença do outro: “Uma pena ela não estar aqui hoje…”, ele disse… Não se referia a mim como protagonista ou às canções que proferia, mas ao ensejo que se perfazia no fato de tê-la ao seu lado, ainda que por alguns momentos como aquele… Aquela que, dentre tantas outras coisas e pessoas, gerava significado para sua existência, tal para que prevalecesse (e permanecesse) a esperança em seu âmago.

Persevere homem… Saiba que estou pensando em você enquanto disseco meus pensamentos junto a uma garrafa de vinho (um excelente malbec) na madrugada… Nem sei se devo escrever isso (sobre o vinho). Deve estar aí, junto aos seus pensamentos e no escuro… Mas jamais sozinho, pois nos tem aprisionado (seus entes) no seu calcanhar.

Estarei por aí na próxima segunda-feira… Caso o encontre, te deixarei esse pequeno manuscrito para que saiba: carrego-o junto à minha memória, pois sou um colecionador de memórias. Espero que essas palavras o alcancem e o encontrem bem.

Faça com que essa história tenha um bom final, pois sei que voltarei a escrever sobre nossas conversas e espero ter um final justo: justo ao que diz respeito a sua luta e ao significado que pertence à história que ainda haverá de escrever. Por hora, apena aguardo, amigo… Boa noite.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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