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REVELAÇÕES DE DIÁRIO III

FUGA LIGEIRA:

Caro diário, eis me aqui de novo debruçado, sobre suas paginas pardacentas e ímpias, mas dispostas a receber os rigores pesarosos do chororô que desabo sobre suas linhas castas, a minha pena incansável, e por vezes infantil.

Isto se passou um pouco antes de Teodora ir embora naquele quarteto cigano, em busca de sua aventura musicista. Tendo a acreditar ter sido isto, o facilitador para a sua fuga de mim.

Talvez eu o amedrontasse com o furor da minha loucura por ela, e o que isto poderia vir a ser. Na verdade ainda não sei. Ainda não processei tal fato.

Meu querido diário: Talvez após transcrever o acontecido eu venha a entender onde marquei tanta touca…! Que só restou à minha dádiva divina tocar violoncelo em outros palcos.

Veja o que aconteceu naquela coincidente noite de lua cheia:
No inicio da noite uma brisa vinda do norte fez-me sentir teus carinhos no torso e nos olhos. O beijo febril que ardia de ânsia da espera; – já o sabia.

Ela não viria àquela noite, pois a brisa não trouxera os odores de Teodora. Iria ser uma noite fria.

E quando a noite chega, o calafrio dos insanos percorre mudo meu corpo. Posso sentir o magma me queimando os tuneis sobre a pele; – a erupção escapando-me por entre poros, os olhos explodem em suas orbitas e a mente desperta ao pesadelo.

É noite… A lua brilha tanto e tanto mingua, pré-menstrual mesura, minguante e meia lua, por fim novamente cheia. Como o velho “Chico” arrasa suas aguas rio abaixo, sangrando-me a pele por onde relo.

A mente azucrina-me as têmporas que de tempos em tempo bate cansada sonora, tal qual a garoa que bate na fresta da telha e banha me o corpo acostumado às sombras.

Reclama num grito seu rogo perdão:

- Olhe que o tempo muda enquanto nascem às rugas nas faces dos velhos. As frestas nos mostram um tempo por cada pisada nas ruas da vida. O velho antes moço trazia consigo a jovialidade e muitos sonhos. Não via mudar a cada instante teu belo rosto nos espelhos do dito tempo.

O sorriso juvenil transferiu se para um senil, e os sonhos tornando se fato, fardos.  O tempo do homem transcende o universo repleto de outros fatos

E o moço, agora velho. Encontra teu legado nos sonhos encobertos pelas faces rugas.  E que toda coisa que sente, atinge seu coração que finge ser papel, sustenta sob a fria tinta tuas poesias duras.

- Olha que o tempo passa como muda as rugas na face dos velhos. A lisa derme abrindo se em frestas traz um sorriso estampado na cara, o sorriso vindo de dentro, não é o mesmo sorriso que uma vez sorrido, fica grafado na câmara escura que capta no self.

Sorri! sempre anseia a alegria, que às vezes nos mostra tudo o que foi ressentida na mera lembrança. O sorriso lembra o repuxar dos lábios na hora da dor e da alegria no rosto do moço enquanto furor.

Oh mente bandida… Qual pássaro pousado nos galhos da lembrança esboça uma melodia longa e tardia? Lembrando-me dos desejos insatisfeitos e perguntas não respondidas.

O velho sentado no alpendre aprende com tal pássaro, o canto que ainda vaga na memória, me lembra de que posso voar.  Pois voe minha mente e viaje por muitos pousos.

E quem sabe ainda ha tempo de rever Teodora.

Este alado pousado no alpendre aprende a ver com olhos de gente, que sente, mas nada diz. Convivendo com teus sonhos ou seus pesadelos, vencendo teus medos latentes.

E, no entanto, tudo aquilo da mente me seduz me arrasta para o fundo do oceano que afoga, afaga e leva-me do sono, o pesadelo sonhado.

Me desperto de repente em casa!  Passo a passo cada ponto tem meus traços, hora na boca, hora na sala alagada pela garoa e a janela escancarada pelo vento vadio.  Em casa enfim! A noite persiste no cheiro das bitucas no cinzeiro e do vinho derramado sobre o diário, e tudo que resta da noite que a lua vazou e extinguiu se como uma bola de gás de neve de ar?! E que ironia… Que coincidência! Um bip me diz que um regado aguarda cansado na eletrônica secretaria.

Diz desaforos, aparatos e afins, me diz que é o fim… Que fim?! Se não houve começo… Por toda tensão sublinhada existe uma magoa!

A voz falha na máquina… Não escuto nada antes da frase (…). Não se engane, não posso fazê-lo feliz, o prazer não esta na ponta do pênis e nem num tal de ponto “G”. Esta na razão de dizermos sempre “sim”. E isto… Não falamos…

A máquina cospe suas palavras presas ao magnetismo da sua útil função, e cobre por traz da caixa a verdade escondida, a desculpa da fuga. O bip me diz que é o fim do recado. A secretaria encerra seu papo com um suspiro cumprido e microfônico chiado.

E a histeria invade – me o riso, gargalho feito louco, rio até não ter mais controle sobre o riso. Tento contar até dez, mas aquilo me devora os números. Apelo ao choro que vem como um arroto doído, que me escancara a boca e escapa por entre os dentes.

Tudo vem com muito exagero:- a dor o choro, o soluço e o peido. Como se todos os vazios do meu corpo fossem preenchidos de repente com água e massa. Como draga a vazar sua contenção de lama parada por anos.

Após o chororô, vem o silencio e a mente vazia. Parece que tudo aquilo sentido, dissolveu-me o riso e as lagrimas. A lua vermelha caminha por onde pousa o sol e congela a noite perversa.

O frio me enrijece, queima e dilacera-me o peito murcho de tanto aperto; – Hoje, sinto e sei o que o jovem Werther passou quando sua Carlota o deixou e fora embora.

Mas naqueles tempos não havia recados eletrônicos. Só havia as cartas, o “en tête à tête”. Onde os males entendidos eram desfeitos ou eternizados se caso o carteiro morresse ao caminho.

Meu amigo diário; – minha mente segue vazia. Vou sair, vou respirar o ar do boteco, conversar com meu analista enquanto solvo umas garrafas de vinho.

“Conversas de boteco” ainda são as melhores terapias. Vou procurar o cantor, e se ele permitir, uma canja.  Tocaremos blues pela noite adentro, embalados pelo vinho e pelo papo, sempre rola bom som

Meu diário,  assim me despeço pois mais nada tenho a dizer a não ser; – “arrivederci”.

mario

 

 

 

 

Mário Inácio de Oliveira, empresário, poeta e observador comportamental.

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