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MAIS COR, POR FAVOR!

Era uma vez um bebê recém-nascido. Após o parto, assim que sua mãe a pegou no colo, percebeu que a menininha não era igual as outras. Ela tinha cada uma das partes do corpo de uma cor, sim, os bracinhos eram rosa, as perninhas verde-limão, os cabelos continham todas as nuances do vermelhos, as bochechas azulzinhas, a barriguinha roxinha… De fato a garotinha deixou até a boneca Emília com inveja.

A mãe, coruja que só, adorou o fato de ter a filha mais colorida do mundo, e a vida seguiu alegre e contente.

Conforme o tempo foi passando, e ela crescendo, as cores começaram a invadir outros aspectos de sua vida, que não só seu corpo! Os desenhos eram multicoloridos, o quarto era supercolorido, as roupas eram blastercoloridas, o mundo da garotinha definitivamente era o mundo das cores. Sua alegria, suas brincadeiras, seu jeito de ver a vida era colorido. Todas as crianças da rua amavam a Quinha, pois ela entendia de verdade o que era brincar de “mundo da fantasia”, só ela era capaz de criar um mundo imaginário tão mágico e tão deslumbrante!

Quando Quinha entrou na escola, seu coração quase parou de alegria ao ver aquele monte de cadernos, lápis, canetinhas, tintas e folhas em branco, neles ela poderia desenhar tudo que quisesse, sem limite, sem economia. A professora virou seu espelho, sua inspiração, tudo que Quinha mais queria era crescer e se tornar uma mulher como ela, ou seja, trabalhar todos os dias rodeada por cor e por crianças que, assim como ela, amavam o criar.

O tempo continuou passando, passaaaando, passaaaaaando… Quando chegou aos 15 anos algo estranho começou a acontecer, alguns amigos e a família passaram a chama-la de Jéssiquinha ou então somente Jéssica, o apelido de infância parecia ter sido esquecido. Seu jeito colorido de ser não agradava mais como antigamente, vez ou outra ouvia de alguma tia: “Ai Jéssica, não é melhor tapar esses braços e essas pernas coloridas, com roupas mais apropriadas pra sua idade?”. Ao entrar em lugares como a escola ou restaurantes, os antigos olhares de curiosidade, passaram a ser olhares de desaprovação.

Jéssica não entendia o que estava acontecendo, o que havia mudado?

Parecia que sua alegria não era mais bem-vinda, seu jeito de lidar com as coisas por meio de brincadeiras não era mais aceito como “legal” ou “bacana”, ela tinha se tornado estranha aos olhos dos outros. Foi até o balanço, que ficava pendurado em uma velha e grande árvore no fundo do quintal de sua casa, ali sentada, chorou durante horas, sentia uma dor de luto, a dor de ter perdido alguém para sempre. Essa foi a última vez que Jéssica aproveitou a sensação do vento no rosto, de frio na barriga por ir cada vez mais alto, a sensação que só um balanço pode nos dar.

Assim, triste e buscando ser aceita, ela seguiu o conselho da tia, passou a usar mangas longas, o cabelo natural vermelhíssimo foi pintado de castanho, a maquiagem ajudava a esconder o colorido do rosto, o tom de voz também mudou… Mas o mais difícil de mudar, foi o jeito de ver a vida.

Jéssica se transformou em uma adulta-bege-e-cinza. Roupas apropriadas para a idade, nada de cor, nada de brincadeiras, nada de nada. Toda a família, os amigos e o pessoal do trabalho estavam contentes com o jeito adulto da Jéssica ser.

Mas Jéssica não estava feliz, todo aquele cinza invadiu seu coração de um tal jeito, enchendo-o de tristeza, ela não tinha mais energia pra fazer as coisas, era tanto cinza, que nem sonhar mais, ela conseguia.

Em uma tarde também cinza, de inverno, presa em casa por causa da chuva, Jéssica resolveu organizar algumas coisas velhas, afinal de contas eram quase 38 anos de coisas acumuladas. Entre uma caixa e outra, ela encontrou seus antigos cadernos de escola, fotos velhas, dobraduras de papel, recortes, colagem, só não conseguiu encontrar onde foi que ela se perdeu, em que momento deixou de ser ela mesma. Ao ver seu retratado aos 8 anos de idade, Jéssica chorou, chorou muito, pois aquela garotinha da foto, a Quinha, se tivesse oportunidade de ver com seus próprios olhos, aquela mulher de 38 anos, ali de pé, sem cor, sem graça, sem brincadeiras em sua rotina, também teria chorado muito, teria chorado de seu futuro, teria se revoltado, teria perguntado mil vezes: Por que você se deixou levar? Por que você deixou que me matassem dentro de você?

Assim que o sol saiu novamente, Jéssica foi a uma loja, comprou um belo vestido curto e colorido, passou no cabeleireiro e cortou os cabelos, pintou-os de… adivinha? Pediu demissão. Gastou todo o dinheiro da rescisão em tinta, cadernos, canetinhas, lápis aquarela, livros infantís, massinha e sei lá mais o quê.

Os pais achavam que ela estava louca, os amigos julgaram-na inconsequente, complexada, falaram até em negação da vida adulta. Ela nem ligou, comprou uma passagem, encheu as malas com os materiais que havia comprado e sumiu. Sem deixar nem uma gota de tinta como rastro, se é que você me entende?

A única coisa, hoje, que tenho certeza sobre a Jéssica, é que, onde quer que ela esteja, todos a chamam de Quinha.

cinthia

 Psicóloga, coach, consultora e palestrante

About Receitas de Viver

One comment

  1. Cinthia, você nem imagina a quantidade de sentimentos bons e coloridos que estou sentindo nesse momento! Obrigada pelo carinho, pela atenção, pelo trabalho lindo de coaching que me trouxe de volta as minhas tão adoradas cores. Você fez muita diferença nesse processo de retomada. Obrigada por ser uma amiga. Obrigada por ser minha coach e me auxiliar com a sua mágica. Obrigada pelo olhar gentil e certeiro. Obrigada pela direção. Obrigada pelo aconchego. Obrigada.

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