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ENCONTRO MARCADO – Pergunte ao pó

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Seria um dia comum de trabalho… “Mais um dia”. Entro no carro e sigo para meu ponto, em algum lugar da cidade: “Não, querido… Não como hoje… O celular ainda não era tão comum naquela época, não seja idiota: trato aqui do final da década de noventa, esqueceu? Tempo em que se quisesse chamar um táxi, simplesmente deveria tirar sua mão preguiçosa do bolso e estendê-la, caso visse a luz da etiqueta sobre o carro acesa…”. Voltando… Seria um dia comum de trabalho, não fosse aquela dor de cabeça perturbadora. Não me recordo do valor do taxímetro ou da cara mal humorada do cliente (normalmente era), ou mesmo se havia algum cliente… Alias, se recordo de qualquer coisa, tal memória será enterrada comigo.

***

O quarto que uso de escritório ainda está uma zona, pois não deu tempo de colocar tudo em ordem… Mudança é assim: pensamos que não acumulamos lixo e coisas inúteis… O que continham então os quatro sacos de cem litros que deixei na lixeira? Isso sem contar os objetos, que encheram um quarto para que fossem doados a um asilo. Não tenho como ignorar a ironia dos fatos: as “coisas” que já não me valiam teriam o mesmo destino daqueles os quais “já não valiam” para outrem.  As pessoas são assim… Não percebem a diferença entre o semelhante e um mero utensílio… De tal maneira se tornam abjetas… Fadadas ao mesmo abandono.

Ao menos tenho um vinho para fazer companhia: “em tempos difíceis, um vinho mediano é melhor que nada”, disse outrora um velho amigo enquanto me servia.

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Garoava naquela tarde… Finita tarde, pois tinha um prazo a cumprir. Normalmente quando se tem um prazo a realizar, parece que o tempo se torna seu inimigo, ainda mais quando a tarefa é árdua. No meu caso, precisava entregar meu apartamento, havia-o vendido e me propus a esvaziá-lo a tempo de não deixar vencer o próximo condomínio, ainda que tivesse um mês de limite. “Eu mesmo faço a mudança!”, proferi às mulheres: tanto à minha quanto à corretora que o vendeu.

Parei o carro em frente ao prédio novo, num horário incomum para evitar os moradores, já que carregava pequenos objetos… Pequenos a ponto d’eu mesmo poder carrega-los sozinho, ainda que tivesse de perpassar por várias idas e vindas. Como disse anteriormente: o tempo não se fazia amistoso durante aqueles dias… Garoava enquanto as pessoas olhavam para mim, e para “minhas coisas”, como se pretendessem especular minha intimidade, ao ponto de evitarem meu olhar, por mais que eu buscasse os seus… Parece que preferiam olhar para as meias sujas, e desbotadas, pendurada no cesto de roupas abertos que carregava junto a uma mala de livros. Aliás, foram várias malas de livros… A maioria que nem mesmo li, mas fiz questão de trazer comigo, talvez apenas por fazer parte da minha loucura em querer mostrar para mim mesmo que possuía qualquer tipo de intelectualidade ou para manter a presença silenciosa e constrangedora no mesmo ambiente em que tentava produzir os meus próprios… Enfim.

O fato foi que me senti invadido em alguns momentos… Em dada circunstância que até mesmo o próprio síndico se ofereceu para carregar minha mala de objetos de coleção: “não…”, disse a ele… “São objetos delicados”, pensei enquanto me esforçava para, desajeitadamente, ocultar a mesinha “caindo aos pedaços”, mas que, com uma pequena reforma, ainda poderia servir. Tal fato me remeteu ao dia anterior: no hospital… Mais especificamente à “casa de saúde para deficientes mentais” (baboseira pueril para intelectuais frutos do politicamente correto). “Pessoas, meu caro…”, disse-me certa vez um paciente: “Apenas pessoas com certas desordens…” e sorriu com devido sarcasmo… Tal qual eu mesmo nesse exato momento após sorver três quartos de um malbec mediano.

“Doido” ou “deficiente mental”; “preto”, “negro”, ou… o pior: “afrodescendente”… “Gay”, “bicha” ou “homoafetivo”… Puta saco. Cago e ando para essa merda toda… Quando vejo um gato sem orelha, dou o mesmo afeto que usualmente sinto por um gato que a possui. Um cão é um cão, ainda que tantas pessoas insistam em segrega-los por “raça”… Como se isso fosse fazer diferença no sentimento que despertaremos por eles. Pois bem… Ao me referir aos caras da “casa”, não era diferente… Pouco me importava onde se encontravam, pois me sentia com eles de tal modo como me sentia com qualquer outra pessoa conhecida e desconhecida, aliás, sinto-me pior, confesso, com muitas pessoas que convivo aqui, no mundo dos “normais”.

Na antecâmara, uma espécie de teatro (cheia de macas ocultadas além da cortina… “Nos bastidores”), longe do alcance dos pacientes, ao ter em mãos o prontuário de um dos homens que convivi pelo discorrer de um ano, entre uma ala e outra, senti-me como se estivesse invadindo-o… “Psique exposta (como portas escancaradas de um valioso museu) diante meus olhos…”, pensei. O homem tinha a minha idade… Havia perdido a sanidade ao bater a cabeça num acidente de trabalho… Taxista. Fora, com o tempo, abandonado pela família e o estado o prestava o suporte possível, mínimo necessário… Quem sabe até quando?

Vasculhei linha por linha sem dar conta da intimidade não consentida a qual vivenciava naquele momento… Fato que viria a tona na tarde seguinte, quando olhariam para minha intimidade, para o par de meias suja ou para o móvel riscado que carreguei com minhas próprias mãos, e sozinho, para meu novo lar. Disse “lar”, pois é diferente de “casa”. O primeiro conota local de identificação e acolhimento, enquanto o segundo: “casa”, remete apenas a abrigo e para tal, basta um teto, um toldo ou mesmo um cobertor velho… “Se estar abrigado é estar em ‘casa’… Caminharei ao relento”, penso, nesse exato momento ao sorver mais um trago.

“Homem de trinta e poucos anos que perdeu a sanidade após acidente de trabalho e que, com o tempo, fora esquecido por todos aqueles que algum dia o amaram, igualmente a todas as coisas que não queremos mais. Tornou-se nada menos que um utensílio largado num quarto, à espera de alguém que o ressignifique ou à própria sorte.”, relatava resumidamente, nas entrelinha, os dizeres do prontuário. E isso é tudo.

***

Minha cabeça ainda dói… Não posso falar, mas posso te ouvir: “e se eu apenas pudesse fazer um trato com Deus, pediria a ele para trocar os nossos lugares: correria estrada a fora; colina acima; correria pelo prédio… Oh Se eu pudesse…“, dizia a canção… Mas não posso, pois a vida não é um conto de fadas ou como um jogo perdido onde há a possibilidade de recomeçar do zero, com uma nova “sorte”ou de igual para igual. Estou fadado a permanecer aqui, amigo… À mercê do tempo e das coisas, sendo “estudado”, analisado e invadido, tais quais todos, em algum momento e no decorrer das idades, também hão de se tornarem nada mais que meras lembranças reprimidas de outros que se julgam sãos… E salvos?

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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