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ENCONTRO MARCADO – Luz dos olhos

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Já toquei em alguns lugares… Desde lugares ordinários até mesmo em alguns poucos mais sofisticados. Mas algo sempre me atraiu para os subúrbios, para as sarjetas – o meio fio, ou sob a luz débil de uma luminária no coração de uma praça abandonada junto às folhas que se acumulam à merce dos ventos entre os declives, onde as estações se amontoam fruto do descaso iminente –, mas nada comparado a aquilo… Não me refiro a um lugar físico e palpável, mas a um olhar.

Costumo escrever à noite, normalmente acompanhado de um bom vinho e hoje não foi diferente: optei por um prosaico cabernet, junto a um devaneio que me tortura “caso venha a ganhar a vida, também, como escritor…”, ou seja: não estarei muito longe daqueles os quais, vez e outra, buscam acalento em mim… “Já me encontrei no limiar por algumas vezes”, disse a ela: apoiada num sofá maculado, com uma veste que se perfaria, no mundo além daquele universo, como um pedaço de pano surrado e indecente, refletido pelo o Sol que castigava do lado de fora daquelas paredes… “A diferença é que ainda consigo encontrar o caminho de volta”, disse tentando ocultar, em um sorriso torto, certa melancolia o qual sabia ser perceptível.

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Deve ser por isso que reluto a adentrar aqueles corredores obscuros, do mesmo modo como reluto ao sair… Porque no fundo sei que o que me separa daquela condição é a razão… Simples assim. Tão tênue: poderia escrever um livro sobre as similaridades (sinais e sintomas, como eles dizem) que seriam os suficientes para me manterem ali sem “passagem de volta”… Mas simplesmente a RAZÂO é capaz de se perfazer como uma chave, proporcionando-me ser apenas um mero visitante: (…) “É necessário uma dose intensa de loucura (ou de um bom vinho, no meu caso) para produzir arte.”, disse enquanto me disferia um olhar hipnótico… “Toque uma canção sobre a loucura” – Revidou-me enquanto sorria.

Ela estava deitada (para não dizer “jogada”) no sofá enquanto outras pacientes perambulavam a esmo ou mesmo, lançavam o pouco de atenção que ainda lhes restavam, às grades da TV… Atentas ao que não requer o mínimo de atenção, se não a própria passividade e subserviência. Ela levantou a cabeça e olhou desconfiada, como se ressurgisse entre os mortos de modo que a vida inda doesse: regozijando os primeiros acordes oriundos das notas melancólicas as quais soam como um registro próprio emocional… Como quase sempre.

Passamos por duas alas antes de nos posicionarmos ali: portas; fechaduras; grades entre as janelas, entre as paredes e a “liberdade” – escrevi entre aspas, pois o que é a liberdade se não a ação precedida da reflexão (estado de consciência pura)? – enquanto o ar viscoso e vil preenchia grande parte da jornada, mas, de alguma forma, não era capaz de se manter quando sob a luz daqueles olhos.

Uma companheira de oficina veio ao final e me cumprimentou pelas palavras ditas no momento em que guardava o violão: “Do que está falando?” – Perguntei a ela – “Sobre o que disse no final… Foi perfeito!”. Uma pena não me recordar para poder descrever aqui… Faz parte da minha pequena dose de loucura esquecer a prédica… É como se entrasse num transe, ou como se eu mesmo não merecesse aquilo o que em alguns momentos, raros, me atravessa e diz respeito apenas a outrem: como um segredo.

Não me recordo de muito senão das canções que toquei buscando aquele brilho que emanava dos olhos semicerrados daquela mulher que, seja por qual motivo estava lá, merecia mais do que muitos que putrefazem inertes aqui, do “lado de fora”. “Sentir teu coração perfeito, batendo à toa isso dói…” – dizia a canção que pedira enquanto produzia uma flor de papel crepom.

***

Tentei dormir na volta, no ônibus, e acredito que sonhei com essa canção: “A Matter Of Feeling”… Acordei em meio às conversas e decidi permanecer estorvando meus colegas com brincadeiras infantis até culminar em nosso destino, mais especificamente o meu: sentado à meia luz, em solitude, escavando minha memória em busca de algumas palavras sepultadas no esquecimento.

O vinho beira a metade e eu nem mais dou conta do que escrevo: apenas deixo fluir… Sem que seja capaz de julgar minhas próprias palavras ou pensamentos que insistem em me levar de volta para aquele entardecer entremeado por tantos rostos, mas com apenas um olhar: tão penetrante e quente… Como se me aproximasse rapidamente do astro rei… Queimando “como fogo à luz do Sol”, foi como me senti.

Preciso dormir, mas pareço ainda induzido por aquele olhar com tamanha presença… Talvez por que tenha sido surpreendido por tanta vida e isso tenha me perturbado, levando em conta que era eu quem deveria ser o “guia”. “Ledo engano…”, disse àqueles que me ofereciam os últimos e demorados tragos do vinho que comprei no crédito – Momentos que antecediam um transito infernal –, junto a outros dizeres que manterei em segredo para que ainda, de algum sobremodo possa permanecer aqui… Do “lado de fora”… Na cidade dos sóbrios.

 

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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