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ENCONTRO MARCADO – Coisas preciosas

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“Eu me apaixonei por ele e jamais o esqueci… Faz dezessete anos.” – disse com lágrimas nos olhos. – “Talvez porque tudo o que me tornei, até mesmo aqui, lugar e condição onde me encontro, seja mera sombra daqueles tempos… Tempos de más escolhas (viscerais escolhas). “Funciono “, segundo até mesmo meu próprio psicanalista, dessa maneira: com intensidade cega… Entrego-me por inteiro à experiência, dando-me como tudo o que realmente possuo, a tal ponto que não restou nada de mim mesmo a não ser isso o que vê junto a minha própria prédica, que ainda assim é permeada pelo reflexo das velhas memórias e momentos atravessados por aqueles púberes olhos… Meu amante e meu algoz”.

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“Um rádio de pilha dessintonisado, mas que podia ser ouvido à distância… Mesmo após percorrer aquele extenso corredor à procura de um pouco de ar fresco, embora o calor castigasse dentro ou fora das estruturas de pedra, metal, vidros e grades…”, pensei enquanto abria um Merlot rude, para poder dar conta do embolado de ideias que percorriam meus pensamentos naquele momento… Sendo mais honesto: nesse exato momento: 00:00hrs. Ponho uma música para rolar (não qualquer música) enquanto sorvo o primeiro gole… No gargalo mesmo. “O que mais sentirei falta, serão desses momentos… Dessas breves canções, tema de uma vida um tanto quanto peculiar.”, penso enquanto olho para a tela vazia, ao mesmo tempo em que as gatas miam e rolam ao meu lado implorando por um punhado de atenção… Boas companheiras são elas… Por vezes, atravessam a noite junto de mim e meus devaneios.

“Ele é um psicopata… “, disse o homem indicando o número dois com a mão e sussurrando algo que não dei conta, ao mesmo tempo em que apontava para o sujeito ao meu lado: cigarro queimando como um incenso entre os dedos manchados; olhar estático, embora não duvidaria que fosse capaz de, num súbito comportamento, prostrar seus aparentes cento e quarenta quilos diante de mim de modo a conotar sua natureza e o porquê de estar ali… Jamais saberei (espero eu).

Sou um colecionador de memórias e lá estava, servindo-me do violão como um ardil, para poder sentir um pouco da vida pulsante que normalmente não encontro do lado de fora daqueles muros… Assim como disse o jovem de boné “Você caminha por aí, pela noite, pelos bares e becos… E tudo o que vê, além dos copos vazios que restam, são corações e mentes… Tão exauridos e vãos quanto minha própria esperança…”.

“Ele era meu aluno… Dava alas de história na época. Sempre fui assim, de me entregar… Creio que esse descontrole foi o que me arruinou e não o fato de eu, trinta e quatro anos, na época, ter me envolvido com um aluno de dezessete. Ele já era usuário de crack e eu, em vez de ter sido capaz de orientá-lo e direcioná-lo para um caminho que atendesse as suas demandas adolescentes, acabei entrando na dele e me perdendo.” – um lamento; um trago.

“O amor é como um pecado meu amor, para aqueles que o sentem mais”, dizia a voz melancólica na canção enquanto virava mais uma dose merecida após o longo dia: olhos pesados, mas atentos sobre as teclas, de fronte à tela fria.

- Ainda sente algo por ele? – Perguntei.

- Sim…

- Voltará para ele quando sair daqui?

- Não… Está perdido. Além das drogas, deu para roubar… Enfim… Preciso superar tudo isso para poder voltar a ser quem eu era…

- E quem “era”?

Silêncio seguido de um trago no cigarro. Em meio à névoa ele apenas me olhou… Não diretamente para os meus olhos, mas análogo a um sonho: como se olhasse para alguém que estava além de mim, o que talvez fosse eu mesmo, numa perspectiva a qual ainda desconhecesse, mas que já se fazia presente… “Sabe quem sou, não é?”, pensei enquanto procurava dissipar tal devaneio, devido ao fato de que sempre há o receio do descontrole… De que a natureza real, a arte, tudo aquilo o que reprime em nome de um consenso social moral e conservador, venha à tona de modo a não haver mais como voltar.

“É difícil se perceber incapaz de voltar… O problema de entrar por tal porta, é que ela pode não mais estar lá, caso decida retornar.”, disse com os olhos marejados.

Havia outros transitando, aqui e ali… “Bastões” em punho… Um trago após o outro e eu logo já havia perdido a razão. Como uma criança que vai ao circo pela primeira vez e fica imaginando como seria seguir a caravana. Quantas vezes, em minha maturidade, pensei em largar tudo – tal como já fiz em minha juventude – e seguir sem rumo; sem ter que dar satisfações; destino incerto: a leste do Sol e a oeste da Lua… Apenas para poder regozijar um vinho roubado do mercado, tal qual um beijo… Enfim… Minhas confissões, após tanto tempo, não serão capazes de me incriminar… Posso negar tudo caso me pressionem, aliás, foi somente uma garrafa e o vinho nem era tão bom assim.

Melhor parar por aqui.

“Oh bem, o diabo nos faz pecar, mas nós gostamos quando estamos girando na sua mão.” (Massive attack – Paradise circus).

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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