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CONVERSAS DE BOTECO – Um milhão de pequenos pedaços

Sem título

Ele havia chegado ao fim do dia, sentado no balcão enquanto as mesas ainda permaneciam vazias. Pediu uma garrafa mediana… Um vinho rude proveniente de uvas cultivadas na região. Era o que tinha… Ele se serve enquanto o barmen segue seu destino, limpando as marcas de copos do dia anterior.

Ele retira de sua mochila um bloco de notas e começa a escrever qualquer coisa… Não há como saber o que escreve… O importante é apenas se atentar a esse fato. Eis que uma mulher desce as escadas que davam acesso ao piso superior. Ela caminha e cumprimenta o barmen chamando-o pelo nome e pergunta sobre alguns outros funcionários que já deveriam estar lá e aponta para um velho relógio na parede. O homem nada responde… Apenas se volta para seus afazeres.

A mulher então – aparentava ter uns cinquenta anos– olha para o homem sentado no balcão e sutilmente o analisa: uma mochila grande; homem de estatura média; concentrado em escrever qualquer coisa que não a dizia respeito. Ela senta ao seu lado e pergunta – sotaque carregado (da perspectiva ele) – sobre o vinho que está tomando. Ele apenas responde que já havia tomado melhores, mas era o que o dinheiro dava para pagar.

- Não é daqui, não é mesmo?

- Vim do Sudeste… Há algumas centenas de milhas daqui.

- Está perdido…? Digo… Essa cidade não é turística ou coisa do gênero… – ela percebe que ele está concentrado no que faz. – Enfim… Desculpe o incômodo e fique à vontade.

Ela segue ajeitando algumas cadeiras e alinhado às mesas e ele, imediatamente, se vira de lado, desviando a atenção do bloco de notas e a oferece um caneco de vinho.

- Não costumo sentar com clientes, mas ainda está cedo e só estamos nós aqui… Como parece que não aguarda companhia… Tomarei um trago com você.

O homem atrás do balcão coloca outra caneca de barro sobre a madeira crua e a serve de uma generosa dose.

- Você é algum tipo de escritor…? – Acenando com a cabeça para o bloco de papel.

- Não publicado… Mas pela quantidade e frequência que produzo histórias, posso me considerar um.

- Sobre o que escreve?

- Sobre momentos, sobre a vida ou sobre a ótica específica de um homem incomum e vagante… Nada em especial.

- Alguma boa história para contar? Alguma que se lembre, ou que possa descrever sua vinda até essa cidade?

- Sim… Tenho uma. Não é tão longa… Talvez o suficiente para matar essa garrafa.

- Pois bem…

- Hum… – Ele olha para o bloco de papel e para a caneta repousante ao seu lado.

- Comece como se começa uma história…

- “Era uma vez”?

- Sim… Adoro histórias e essa é uma das minhas formas favoritas de começar.

- Pois que assim seja… “Era uma vez…”

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***

Uma pedra há milhões de anos sem se preocupar com nada – pois não havia motivos para que, em sua continuidade existencial, carecesse se constituir da senciência – em algum momento, decide transformar sua existência e pensa em uma forma de fazê-lo. Até o momento que se depara com um organismo mais sensível que se esforçava para romper o solo, mas, mediante a sua fragilidade, não conseguia realizar tal feito.

A pedra então decide ajudar esse pequenino e frágil organismo, lançando-se à ideia que, se fragmentasse a si mesma em milhões de pequenas partes, poderia servir de base para aquele pequeno ser e, em contrapartida, adquiriria uma nova constituição de si mesma a partir do momento em que se forjasse do corpo daquele organismo.

A planta finalmente irrompe o solo pedregoso, pois agora era constituída da pedra e, por fim, pode superá-la. A pedra agora, forjada de planta, agregava em si uma consciência diferente de outrora, pois se encontrava mais suscetível ao ambiente e às sua transformações e estações. Passou a perceber a ira dos ventos e das tempestades; o acalento do Sol primaveril e das brisas que carregavam suas sementes e geravam cada vez mais e mais de si mesma.

Mais do que isso, organismos mais livres e complexos, passaram a ser seduzidos pela nova forma vegetal que assumia e então a pedra se viu envolvida pelo animal e conheceu a liberdade… Passou também a sentir uma realidade diferente da qual estava acostumada: passou a sentir a intensidade proveniente das nuances das estações e junto, conheceu a dor e a desolação.

Destemida, a pedra ainda quer ir além e então encontra uma diferente forma a qual, parecia, possuía algo que a ajudaria a aliviar toda a sua angústia e agonia… Foi o momento em que o primeiro animal humano se alimentou de outro mais rudimentar e junto, essa pedra se veste de homem e finalmente e, inexoravelmente, consegue gritar.

***

- Fim.

- Bela história… É isso o que está escrevendo em seu bloco?

- Quase isso. Quer saber?

Ela apenas acena positivamente com a cabeça e, naquele momento, até o barmen, há alguns metros de distância, prostra-se a ouvir.

- “Tal qual a planta se nutre dos minerais; tais quais os animais se constroem através das plantas; tal qual o homem se desenvolve através dos animais… Carrego em mim tudo: desde a inteligência da pedra até o instinto do animal. Mais que isso: carrego em mim as tempestades e os furações; o acalento da brisa suave e o calor do Sol nascente; do silêncio da meia noite  à cacofonia do meio dia. Sou a consciência ativa de tudo o que posso conceber tal qual o que ainda não posso. Estou na linha limítrofe entre o conhecido e o desconhecido, portanto, quanto mais conheço, mais sou capaz de mensurar sobre o quanto há para se conhecer”.

- O que quer dizer com isso exatamente?

- Quero dizer que, nesse momento sou uma rocha e o que expresso através dessa pequena conversa é o que represento objetivamente, análogo a uma brisa suave num fim de tarde outonal com o que ainda resta de luz e calor em mim… Logo, a escuridão da noite passará a exercer sua força e não as refutarei… Acolherei e as internalizarei, mas não estarei mais aqui, pois aqui e para vocês: ainda sou a brisa suave do fim de tarde.

Ele ergue a caneca e toma seu último gole de vinho. Coloca sobre o balcão uma nota e lança uma moeda para o barmen. Ele então segue seu caminho, deixando apenas o rastro presentificado da sua ausência, silêncio e solitude.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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