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CONVERSAS DE BOTECO – Solidão com vista para o mar

 

sanny

(…) e então passo a observar aquele momento singular como jamais o observei em toda a minha vida… Como se fosse um telespectador dos meus próprios pensamentos, percebe? Desincorporado de mim mesmo como se essa cena fizesse parte de um momento derradeiro da história, onde, sem ela, muitas coisas não fariam sentido algum.

 

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As ondas se quebram de forma sutil e peculiar num determinado momento da madrugada, ou em meio à vida… É como se o próprio mar reivindicasse o silêncio ao passo que tenta me mostrar que aquilo que se move, incluindo a mim, não ficará para contar a história… Apenas aquilo que for escrito na pedra ou na geleira, até que se derreta, de sorte… Num domingo qualquer.

Sabe, amigo, enquanto sinto os resquícios desse gole de bom vinho que ainda permanece com persistência em minha boca, penso em até quando ele terá paciência… Aquela cena do mar não me sai da cabeça, mas, ainda assim, sinto falta da areia sob meus pés. Será que quando eu partir, sentirei falta desses momentos?

E o vinho então…? Cara… Não sei como poderei passar uma eternidade sem poder sentir sua textura, aroma, sabor… Quem quer viver para sempre? Olho para mim nesse exato momento, não da minha própria ótica e sim de um observador: a consciência sobre o tempo parece querer me mostrar através das marcas em meu rosto… É como se eu estivesse sendo açoitado pelo próprio Deus Cronos…

Lembro que permaneci parado na areia, de costas para o mar e me esforçava para erguer minha mão e acenar um adeus que custava a aceitar… Estou novamente bebendo em uma taça quebrada, veja… Pode trocá-la para mim? Creio ser por isso que sempre volto para esse lugar e me sento exatamente nessa cadeira… Você é o único que me compreende de verdade: permanece aí, em silêncio atrás do balcão, enquanto despejo meu conto de fadas corrompido… Apenas continua me servindo sem me cobrar nada em troca.

Tem certeza que não quer dizer nada? Sobre sua filha que foi violentada há pouco? Sobre a perda das suas economias para poder aliviar o sofrimento do seu pai moribundo? Sobre o bar que sempre sonhou em montar, mas nunca teve coragem para assumir a bronca? Sobre como a vida não está se mostrando como pensou que seria quando estivesse com a idade em que está ou sobre os beberrões que vem lhe perturbar com conversas fiadas que não lhe interessam nem um pouco?

Tudo bem… Nem estava afim de escutar mesmo. Preciso levantar para ir ao banheiro urinar, mas isso parece ser um problema para mim. Tenho medo, confesso, de que, quando voltar, você já não esteja mais aqui. Pode aproveitar que eu saí da sua frente para fechar o bar comigo aqui dentro… No escuro… Estou sendo um tolo, não é mesmo? Tolo como um sussurro numa noite solitária.

Às vezes me sinto perdido como um poeta pagão… Sem espaço, sem tempo ou lugar para mim. Você se sente assim de quando em vez? Pensa sobre o dia do seu funeral e de quem aparecerá para levar flores? Oquei, oquei… Não irei por esse caminho… A maioria das pessoas nem se deu conta ainda de que irão morrer numa vala qualquer.

Lembre-se, amigo: todos morrem… Mas poucos vivem. Desculpe estar divagando dessa forma… Só estou me sentindo um pouco sozinho nesse turbilhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo sem ninguém para poder me explicar. Voltando para o assunto da areia do mar… Nem sei porque estava falando sobre isso… Creio que seja por conta da solidão que ando sentido ultimamente.

Está vendo aquela garota ali ao lado, perto da porta…? É estranho pensar que ela jamais saberá o que estamos conversando, sentindo: desde o sabor desse vinho umedecendo essas palavras até o cheiro de madeira velha desse balcão sujo… Tão perto e tão longe ao mesmo tempo… Não que isso seja algo especial ou digno de se viver, mas, pensar que vivi uma vida inteira e tudo o que aconteceu comigo em todas as instâncias possíveis e inimagináveis, me trouxeram para aqui e agora… Ah, cara… Deve ter algum valor sim!

 

 

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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