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CONVERSAS DE BOTECO – Sem você não sou nada

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Não era tarde da noite (tampouco tarde demais) quando dois velhos amigos se encontraram, novamente, no bar dos velhos assuntos: cadeiras rangendo como sempre; o cheiro de fumaça, impregnado na madeira, oriundo de tempos esquecidos… Sazão que morrerá na memória daqueles que não se importam com suas próprias histórias; suas próprias origens… Dias que já foram bem vindos pelos que hoje (falo sobre mim mesmo), não passam de meros saudosistas ultrapassados… Sobrepujados pela virtuosidade do novo milênio (olho para o teto e contemplo os  pequenos insetos mortos no lustre – tomo um golpe, direto da garrafa, e lamento)…

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O ar era espesso, como penumbra que paira entre luzes inertes sobre mesas e denunciam o perfume silencioso oriundo dos vícios, tal qual o próprio ar viciante, peculiar e incômodo, que esperamos encontrar, vez e outra, nos botequins démodés, suburbanos e esquecidos até mesmo pelo diabo que o carregue.

Vou me aproximando da conversa, como um espectador (tímido e silencioso) e os vejo sem que eles possam me ver… Ouço-os sem que possam me notar. Inquiro o som do vinho percorrendo o gargalo a fim de se espalhar: ruby intenso, em seus copos (pois não havia taças) e minha boca enche de cobiça, enquanto todos no ambiente perecem embotados, condenados à periferia d’onde meus sentidos, inda sóbrios, são capazes de alcançar.

- Enfim… O que rolou?

- Não deu certo, cara…

- “Não deu certo”… É isso o que tem a dizer?

- Sim… A convivência estava beirando o inferno.

- Continue…

- Estávamos brigando demais, por qualquer coisinha… Chega um momento em que atingimos nosso limite, não é mesmo?

- Está me perguntando ou afirmando?

- Modo de dizer… “Meu” limite. Esqueci o quanto você é chato…

- Pois bem… Que bom que lembrou.

- Pois é… Seis anos… Seis anos perdidos.

Silêncio. Um trago seguido de um olhar perdido. O interlocutor apenas o observa enquanto eu observo o próprio interlocutor, nosso protagonista, por mais que tenha sido incitado pela própria história, trazido escravo da dor que sentira pela despedida… Não de uma mulher qualquer… Mas uma a qual, em dado momento de sua vida, se aventurou em chamar de “sua”.

As pessoas ali não eram agradáveis sob a ótica dos seus olhares: fracassados, acomodados e amaldiçoados, típicos transeuntes, comuns e desapaixonados… Como à espera do ônibus (na fila da vida) depois de um dia cacofônico e nauseante… O que tornava mais fácil a conversa, já que a distração perecia numa cova rasa e, do mesmo modo: distante.

- Não vai dizer nada?

- Dizer o que? Vim aqui para ouvir sua história, compartilhar sua dor… Sei o quanto ela é importante para você.

- “Foi”, né… Quer dizer.

- Já disse tudo?

- Sim… Você acompanhou a história… Sabe melhor do que ninguém…

- Sei?

- Sim…

- O que eu “sei”?

- Sabe sobre nossa história, ué!

- O que ache que “sei”?

- Sobre o que passamos… Você acompanhou tudo… Não seja chato!

- Não estou sendo chato… Você é quem está sendo raso.

- Em que sentido?

Ele disfere um gole, como um golpe que quase seca o conteúdo do copo e que faz seu amigo, personagem secundário de um amor corrompido, se sentir indigno ou no mínimo envergonhado por estar agindo no atual contexto, como um mero tolo.

- Preste atenção, vagante: quando olho para você eu a vejo. Em suas palavras ouço seus predicados… Em seus atos, estão implícitos os aprendizados, a transformação que veio a partir dela. Certa vez, anos atrás, eu me sentei com você exatamente nessa mesma mesa… Somos pragmáticos… Isso é a única coisa que restou de você: um velho hábito… Enquanto todo o resto foi transformado por ela: o gosto pelo vinho foi refinado; seu vocabulário foi lapidado; sua sensibilidade aguçada… Seus valores foram elucidados; suas crenças cederam lugar às convicções; o “esmo” deu lugar ao norte e o ócio foi ocupado por criação pura. Você era um nada… Como um pedaço de ferro bruto que obteve permissão e foi escolhido por um ferreiro… Sim, ela é o ferreiro, o fogo e a água…  Exímia ferreira, por sinal, pois, mediante a isso, hoje vem a mim sob essa forma: sob a condição de uma espada, sem ornamento algum, porém honesto e sincero. Como luz aprisionada num raio, você se manifesta agora a mim, num único ato, numa cena que pode mudar daqui por diante; como areia escapando (escarpado) pelas mãos. Sua voz inflexível e amarga se tornou contemplativa e melancólica; a solidão, oriunda de uma velha prédica, cedeu à solitude, tal qual a agonia se rendeu ao sofrimento que, diferente da lamúria, é muito mais digno, decente e sofisticado… O mais engraçado é que, sem que se perceba, está condenado a se lembrar dela, pois a carrega no calor do seu hálito; em seu ventre verbal… No modo como gira a taça, nesse momento, enquanto se esforça para sucumbir, em vão, suas preciosas lembranças através das nuvens de sua pele cortical, mas que, furiosamente, tal qual um vulcão, exalará, para sempre, a lembrança do encanto dela… Ela surgiu em sua vida patética como uma gota que perturba a superfície entediante e sublime de uma poça d’água numa sarjeta que há de minguar com a chegada do Sol da manhã. Desculpe-me pela divagação… Devo estar um tanto quanto direto e sem filtros mediante ao vinho… Você dissertava sobre sua relação a qual deu errado… Deu errado? Conte-me mais sobre isso…

Fim.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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