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CONVERSAS DE BOTECO – Morpheus

Image: The Rain Room Is Unveiled At The Curve Inside The Barbican Centre

Enquanto caminhava em direção ao bangalô, meia garrafa de vinho permanecia em sua mão, por hora, supondo que em certo momento, talvez quando estivesse em seu quarto, a ceifaria. A chuva persistia durante dias, mas parece que não mais o incomodava, já que, notavelmente úmido, desdenhava até mesmo a canção entristecida que exalava encantos surgindo de um porão aberto, reluzente e convidativo… Difícil compreender o que o motivava naquele momento…

 

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Quando finalmente chega ao destino, do outro lado da rua, mais precisamente sob um ponto de ônibus, o único lugar debilmente iluminado naquela praça – parece que a chuva constante comprometeu alguns transformadores de luz – se atenta a uma mulher com uma mala… Por um momento ele observa como se questionasse o motivo pelo qual, naquela hora da madrugada, uma mulher estivesse sentada como se aguardasse um ônibus, já que táxi não havia ali, não naquela hora…

Ele não podia ver muito mais que seus cabelos encaracolados que, por estar de cabeça baixa, cobria todo o seu rosto… Por fim, caminha até ela que permanece imóvel, como uma alucinação. “Olá”, ele diz, quebrando a melodia hipnótica das gotas de chuva sobre o frio asfalto, tal qual o lufar do vento rodopiante entre as árvores… Não havia relâmpagos… Não que fosse capaz de ver ou ouvir.

Ele não conseguia de certo ver o rosto dela, mas sabia que, ao levantar levemente a cabeça, olhou para a garrafa em sua mão.

– Você está bem? Precisa de algo? Digo… Está chovendo e você está aí, ao relento… Se quiser, os quartos estão todos ocupados, mas tem duas camas no meu, não me interprete mal, mas é melhor entrar e se aquecer um pouco… Não conseguirá encontrar transporte, seja lá para onde esteja indo a essa hora…

– Quem disse que estou indo a algum lugar?

A voz dela era diferente de tudo o que já havia escutado: como se ecoasse diretamente para dentro dos seus ouvidos ocultando qualquer outro som ao redor… Ele estranhou, mas pensou ser qualquer reação proveniente à quantidade de vinho que entornou.

– Tudo bem… Desculpe. – Caminhando de volta para o hotel, ainda sem lhe dar as costas. – Só queria ajudar… Vi você com a mala e pensei…

– Aceito o seu convite.

Ele para por um momento e acena positivamente com a cabeça.

– Posso lhe ajudar a carregar sua bagagem…

De súbito, estranhamente eles já estão no quarto, o hotel está sem luz e apenas uma luz de vela percorre o ambiente lamentavelmente sem sucesso. Ela toma um gole da garrafa e ele ainda não pode descrever exatamente o que vê, pois tudo parece muito obscuro, seja por conta do vinho ou da pouca luz.

– O que exatamente estava fazendo essa hora naquele ponto…? Não que seja da minha conta, mas, mediante a chuva, o horário… Enfim… Fique à vontade se quiser dormir e me ignorar…

– O que você está fazendo exatamente aqui?

– Como disse? Bem… Não lembro bem… Creio que estou de passagem, viajando, conhecendo alguns lugares…

Era como se os acontecimentos antes daquele episódio desvanecessem das suas lembranças: de onde veio; para onde iria…

– Não está lúcido o suficiente para se dar conta do que está fazendo aqui e crê que pode compreender o que eu estava fazendo ali?

– Sim… Perguntei, pois você parecia sozinha, com pouca bagagem…

– “Pouca bagagem”? Refere-se à mala que carrego? Não é nada… Apenas algumas memórias. Onde estão as suas?

Ele olha ao redor e não vê nada além de algumas garrafas vazias, papeis rabiscados e um violão surrado. Ele franze o cenho e dá de ombros ao mesmo tempo em que requisita a garrafa.

– Oquei… Pode ao menos dizer seu nome?

– Depois que você me disser quem é.

– Meu nome é…

– Não quero saber seu nome… Veja: esse é o problema de vocês.

– Qual?

– Quando você olha para um formigueiro, o que você vê?

– Formigas…

Ela gargalha e estende a mão solicitando a garrafa de volta.

– Desculpe… São muito previsíveis…

– “Previsíveis”? Porque se dirige a mim como se estivesse falando com várias pessoas?

– Porque é isso o que é… Parte de um todo o qual tenta racionalmente ignorar. Responda-me: se encontrar com uma formiga perambulando por aí, sozinha… O que verá?

– Verei uma formiga, ué! O que você veria?

– Nada.

– Como “nada”?

– Um indivíduo não significa nada sem os outros. O que dá significado à formiga é a colônia. O grande equívoco é procurar as respostas de forma individual… Por isso não chegam a nenhum lugar.

– Perguntas? Que tipo de perguntas?

– Do tipo “quem sou eu?”…

Ele apenas franze o cenho e antes que profira seu comentário ela intervém:

– Responda: Qual o sentido de uma colônia de formigas? Faça se servindo de uma única palavra…

– Hum… Lixeira? Estou certo?

– Não importa… Agora faça o mesmo com o sentido da sua vida na terra…

– Bem eu… É uma pergunta bem complexa, não é mesmo?

– É porque está acostumado a responder de forma individual… Vou reformular a pergunta, pois, como você mesmo diz “A pergunta certa é aquela que traz consigo a resposta”…

– Como sabe…?

– Não importa… O vinho está no fim e a chama logo se apagará: Se o mundo acabasse e você fosse um explorador, vindo de outro planeta e se deparasse com a história da humanidade… Qual o sentido que daria à existência do homem?

Ele permanece estático, pois sabe que ela não quer saber sua resposta e após alguns momentos (horas, dias, anos), cai no sono.

Ao acordar, relembra aos pouco do ocorrido na noite anterior e faz um esforço tremendo para se levantar, superando até mesmo a dor que sente na cabeça, até que se depara com a mala. A luz do Sol entra pelas frestas da janela e faz com que a aparência degradante do objeto lhe salte aos olhos: uma mala vermelha surrada que mais parece ter sido abandonada por um andarilho qualquer, então ele se lembra dela. Olha para a cama arrumada ao lado e, num sobressalto, caminha para o banheiro na esperança de encontrá-la… Em vão.

Sem nem mesmo lavar o rosto, abre a porta do quarto e vai direto para a recepção e se depara com a senhora, dona do bangalô.

– Desde que horas está aqui? – Ele olha para o relógio na parede e se dá conta que ainda não passa das nove, direcionando seu olhar para uma brecha no salão principal, percebe que o café está servido.

– Desde às sete… Posso ajudar em algo?

– Você viu uma mulher saindo…? Digo… Uma mulher me acompanhou até meu quarto ontem… Nada de mais, apenas estava na…

A senhora sorri e lhe explica:

– Minha irmã contou que chegou ontem… Estava um pouco alterado, com uma mala velha em uma das mãos e uma garrafa na outra… Ela lhe guiou até seu quarto e você dormiu.

– Não… Não foi bem assim. Havia uma mulher comigo, lhe ofereci abrigo, pois estava chovendo…

A senhora então o interrompe…

– Ela disse também que a chamava por um nome estranho… Apenas me informou, pois a mala que carregava, era a mala que havíamos colocado no lixo com algumas revistas velhas e papéis inúteis… Pediu que eu colocasse-a novamente na rua assim que você se recuperasse. – Falava enquanto sorria.

– Estranho… Não bebi tanto assim para distorcer tanto a realidade, aliás, isso jamais me ocorreu…

– Fique tranquilo… Vá, tome um banho e venha comer algo. Enquanto estiver no banheiro, limparei seu quarto, tudo bem?

– Oquei… Enfim…

Ele sai confuso e volta para o quarto se deparando com a mala. Ele pensa em abri-la e nota que o zíper está quebrado… E isso é tudo o que se lembra, antes da noite em que, ao acordar, se viu novamente sozinho num quarto parecido em um sonho recorrente, com um papel em uma das mãos que continha o seguinte recado: “não se preocupe”… Eis que ele acorda, finalmente.

 

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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