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CONVERSAS DE BOTECO – Mensagem na garrafa

– Cara! Dezesseis anos depois estamos nos encontrando?! Parabéns para nós, ainda estamos vivos…

– Certeza… Salve a internet! Você pediu as contas e depois disso nunca mais tivemos notícias suas. Vejo que está bem… Parece feliz fazendo o que gosta… Admiro você por ter conseguido.

– É… Tocar é uma dentre as coisas que faço e gosto. E você? Ainda continua como engenheiro de sistemas?

– Larguei tudo faz alguns anos… Aquilo estava me consumindo pouco a pouco… Era como estar sendo digerido vivo.

– Pois é… Quando entramos em uma caverna, nem sempre sabemos bem aonde vai dar… Eu era bem jovem naquela época e me inspirava em você…

– É mesmo? – Sorrindo. De súbito ele para por um momento com o cenho franzido. – Está escutando essa música…? Será que tem alguém tocando?

 

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– Não… É som mecânico… A propósito, percebi que não está tomando nada. Importa-se se eu tomar um vinho? Sei lá… As palavras fluem melhor, como se o vinho as lubrificassem.

– Claro que não, sem problemas… Estava dizendo que se inspirava em mim?

– Lembro que você era diferente da maioria naquela empresa, saca? Aquele pensamento corporativo me enjoava (e me enjoa até hoje). Era como se as pessoas não tivessem uma vida fora dali e com você era diferente: sempre bem humorado com um sorriso no rosto; bem apessoado; requisitado. Lembro que você caminhava pela empresa como se estivesse passeando pelo parque: perecia não se envolver com aquilo, sei lá… Pensava: “quero ser assim igual a esse cara.”, pois cá estou: música, psicologia, literatura… Valeu pelas boas conversas no passado.

– Hoje é diferente: observei você ali com seu violão fazendo um som… Feliz. Hoje quem está no parque é você.

– Sim, tive bons professores na vida. – Erguendo sua taça e sorvendo um longo gole.

– É… Em algum momento do meu percurso, tive a experiência de que dinheiro não vale muito quando, em troca, se compromete a própria saúde… Foi nesse momento que decidi largar tudo e montar meu ateliê.

Ele toma mais um gole do vinho e o olha surpreso.

– É mesmo..? Conte mais.

– Claro… Às vezes ainda me pego conflitando com a realidade social, quando paro para pensar na grana que ganhava antes, no investimento nos estudos etc… Em relação ao que ganho agora… Ainda estou começando meu projeto, sei que leva tempo, mas…

– É… Sempre digo que minha ambição termina nos limites onde a minha vida começa. Matemática simples: quando não está satisfeito com o trabalho, falo isso por experiência própria, contamos as horas para chegar o final do dia, o fim de semana ou férias, enfim… Se contarmos que dedicamos a semana para o trabalho e o final de semana para a diversão, estamos falando de 120 horas por 48 horas de descanso e qualidade de vida, isso quando não estamos tão acabados física e mentalmente que nem mesmo energia nos resta para aproveitá-lo. No fim do mês, pegamos o contracheque como recompensa onde a felicidade dura o suficiente para pagar as contas necessárias e aquelas que criamos acreditando serem necessárias.

– É bem por aí…

– É como subir uma montanha esperando chegar ao topo, quando a verdadeira felicidade deveria ser encontrada na jornada. É um pensamento muito difundido e que, de sorte, parece até “valoroso” em se ter… Acredito ser um pensamento tendencioso e burro se pararmos para pensar que passamos mais tempo no percurso do que regozijando a conquista. É de praxe em nossa sociedade “manter a produção”, assim sendo, somos condicionados a nos sentir incomodados ao permanecermos no ócio e logo nos lançamos para mais uma jornada infeliz em busca de uma recompensa utópica. Observe: estou no meio do meu trabalho conversando com um amigo e tomando um vinho… Não me importo com o tempo, pois nem mesmo sei onde termina meu trabalho e começa a minha vida. Deve ser assim quando está produzindo sua arte, como um ourives que sempre foi…?

– Certeza… É o que amo fazer e sempre amei. Ainda estou no processo de desintoxicação desse dito “pensamento social”.

– Pois bem… É onde a coisa se inverte: quando nos lançamos a fazer algo que gostamos, passamos a investir a maior parte do tempo nos satisfazendo com aquilo que verdadeiramente nos faz bem e a recompensa é imediata… Acredito que quando nos concentramos em fazer o melhor possível dentro do que nos faz bem, é quando a coisa realmente acontece. Do outro lado, as pessoas vão se encantar tanto pela forma como é apaixonado pelo seu trabalho, que vão querer um pouco “daquilo”, saca? É a mesma coisa quando alguém chega para mim no palco e pede para dar uma “canja”… O que vejo diante de mim, é um cara que quer sentir a paixão que estou sentindo. O ato de tocar, ele acredita, é um veículo que o permitirá se apaixonar assim como percebe em mim ao me ver fazer, entende?

– Sem dúvidas!

– Sei que sabe, pois é isso o que vejo em você e por isso vou lhe encomendar uma peça em especial… Sei que a fará com alegria e usará a paixão como um ingrediente final que tornará a peça, fosse ela uma pintura, uma música, uma cena… Única! Observe: estou tomando esse vinho como tantos outros, mas ele se torna único, pois estamos tendo essa conversa após dezesseis anos e isso jamais acontecerá novamente, compreende? Jamais será como hoje… É preciso ter paciência com a vida e as peças vão encontrando os seus lugares no quebra-cabeça da história que nos compõe.

– Faz sentido… Após tantos anos, vim aqui te ver tocar e, por fim, estamos tecendo essa conversa.

– Tenho uma coisa para você…

– É mesmo? O que é?

– Uma mensagem… Uma mensagem de outrora, onde eu nem mesmo sabia que eu era um artista e você ainda se vislumbrava com a vida “segura” que toda aquela ilusão capitalista insistia em nos imputar.

Ele tira do seu bolso um pequeno pingente de prata: um Ankh.

– Cara… Você ainda guarda isso? – Tomando em sua mão. – Essa foi uma das primeiras peças que eu fiz…

– Sim, me lembro. Pois é… Essa peça serviu como “aliança” no meu primeiro casamento. Já que não gostava das alianças de dedos tradicionais, eu e minha mulher, na época, pedimos para um ourives fazer uma cópia já que havia perdido o contato com você.

– Impressionante isso reaparecer exatamente nesse momento desafiador da minha vida…

– Pois é… O artista em você, naquela época, reconheceu o artista que nem eu sabia que existia em mim e mandou, destinada a si próprio, essa mensagem para o futuro… Exatamente para esse momento.

– Faz todo o sentido… Preciso repassar algumas histórias da minha vida e encaixar essas peças no quebra cabeça. A vida conversa com a gente de forma estranha… Se não ficarmos atentos, as coisas passam despercebidas e vão se acumulando. Devo ter algumas mensagens importantes que não dei conta, na “caixa de entrada” da vida… Está na hora de abrir essa caixa.

– Certeza… Fico feliz em encontrar o sentido nesse momento… Falo por mim. Provavelmente vai encontrar a pergunta certa a fazer para si mesmo. Esse símbolo significa “imortalidade”, caso não saiba… Os egípcios o usavam como símbolo da “vida após a morte”. Interessante, pois para mim obteve um significado que carregarei para sempre…

– Estranho… Fico pensando no que isso pode significar para mim, após tantos anos…

– Isso não sou eu quem lhe responderá, viajante do tempo… Meu papel aqui é apenas como mensageiro…

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About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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