Home » CONVERSAS DE BOTECO – Epifania

CONVERSAS DE BOTECO – Epifania

5283057296_e8ba143510

Não era a primeira e, porque ele sabia, também não seria a última vez que veria aquele homem sentado na mesa, sozinho… Como tantas outras vezes.

 

Aperte o play

 

– Como está, amigo? – após colocar cuidadosamente seu violão no descanso e enrolar os cabos.

– Tranquilo, como sempre… Se quiser sentar… – diz apontando para a cadeira vazia.

– Se não for incomodar… Pedirei meu jantar e posso lhe fazer companhia, se quiser.

– Para mim é um prazer. O que quer tomar?

– Nada…

– Por favor… Por minha conta… Peça algo para me acompanhar nessa última dose.  Sei que gosta de vinhos… – No mesmo instante ele chama o garçom. – Traga o melhor que tiver.

– Olha, amigo… Não precisa…

– Faço questão.

– Sabe meu nome, não é mesmo?

– Sim… Assim como sabe o meu sem eu nem mesmo ter lhe dito.

– Você é o músico… – Ele estava levemente alterado e conotava isso na maneira pausada como dissertava.

– Mas eu sei o seu mesmo sem você ser músico… Portanto… Tanto faz… – Sorrindo enquanto o garçom abre a garrafa cuidadosamente.

– O que é isso? – Pergunta ao mesmo tempo em que se direciona para a garrafa e o olha com um olhar desafiador.

Ele sabia que o teor da pergunta não era meramente da forma óbvia como aparentava, mas decide explorar seu companheiro de copo.

– Uma “garrafa de vinho”?

O homem gargalha e bate a mão na mesa, levando alguns segundos para se recompor. Sendo o artista que é, apenas o observa desafia-lo enquanto sorri um riso discreto, talvez imaginando aonde aquela conversa chegaria: ele se esbaldava com aquele tipo de situação.

– Diga-me você então… – Devolvendo-o o estado contemplativo inicial, tal qual recobrando sua sobriedade.

– Isso será o que você quiser que seja… Ainda que queira se limitar à forma como se apresenta “uma garrafa de vinho”… – Em tom de deboche.

O garçom o serve delicadamente e o aguarda provar. Ele sabe que a qualidade se relaciona aos bons vinhos que tomou, mas, contudo, seca a taça num único gole e simplesmente pede ao garçom que lhe sirva mais enquanto fita seu recém conhecido, de modo a aparentar ser o tolo que não era.

– Tolo… – Diz o homem se servindo de mais um gole de sua mistura de vodka com alguma outra gasificada.

– Eu sei… Agora me diga: como é, numa noite como essa, ter apenas um tolo como companhia?

O homem o olha profundamente com o cenho franzido, num sobressalto… Conotando ter sido atingido de algum modo, mas não podia dar o braço a torcer.

– Está certo quanto a isso… Sempre me vê aqui sozinho, não é? Sabe por quê?

Ele apenas se serve lentamente de um gole e o regozija… Saboreando os próprios lábios como se não bastasse o vinho e sim o sentido que a sua pele o desferia, levando a taça para próximo de suas narinas como se o aroma e ele próprio fossem inseparáveis… Evocando um olhar taciturno como se vivenciasse algo que jamais alguém fosse capaz de sentir na forma humana… O homem se cala por um instante e apenas observa, desejando no fundo da sua alma, sentir o mesmo como se já não fosse mais capaz.

– Agora pode dizer…

– Dizer o que? Sim, claro… Sobre a minha solidão… Pois bem: vivi através do tempo julgando as pessoas como insuficiente, assim como há pouco o fiz com você. Acreditei que de alguma maneira elas tinham que me seduzir e me entreter… Quererem-me… Mediante a isso, fui deixando de investir em mim mesmo e me tornei desinteressante. Não construí laços sólidos e, com no decorrer das idades, ninguém mais contava comigo, me esperava ou lamentava a minha ausência. O que quero dizer é que: construí essa minha realidade crendo que era importante demais enquanto as pessoas não eram o suficiente. O que posso fazer hoje, com louvor, é o que estou fazendo, pois, por outro lado, construí um império… Assim pago seu vinho; assim pago a atenção do garçom ou o sorriso daquela moça… Tarde demais para me confessar?

– As frutas amadurecem e caem enquanto as árvores continuam firmes. – Diz enquanto saboreia um demorado trago.

– O que quer dizer?

– Nada…

– Oras, por favor… Explique-me.

– O que é isso, então? – Apontando para a garrafa que consumia, de modo a devolver o desafio que havia feito  momentos atrás.

Ele ri novamente.

– Pois foi exatamente a pergunta que lhe fiz…

– Você não tem uma resposta, não é mesmo?

– Não… Porque não tomo vinho…

– Oquei… – Ele se levanta –  Preciso ir andando, mas admito que gostei da sua companhia… De algum modo eu gostei. Quanto à frase que disse… Sobre a árvore, quis dizer que não importa se passou do tempo em alguns momentos ou situações… Pode começar tudo outra vez, assim como está fazendo agora… A “árvore” é você.

Ele se serve do último “golpe” e se levanta oferecendo-o um abraço. O homem se levanta e o abraça, não um abraço comum, mas um abraço de quem se sente agradecido. E então, antes que ele se vire para juntar seu violão e sua bolsa, o outro segura em seu ombro e diz: “Naquele momento em que tomou aquele gole, assistindo você como uma valiosa obra de arte: o ‘homem e o vinho’, finalmente compreendi o significado disso… – Apontando para a garrafa. – Como lhe disse, a resposta não estava em mim, mas sim em você mesmo… Respondeu-me graciosamente: uma resposta desmedida demais para o verbo, numa cena profunda que, me permitindo ou não… Guardarei comigo”.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

BIGTheme.net • Free Website Templates - Downlaod Full Themes