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CONVERSAS DE BOTECO – entulho

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“Eu tenho aquele sentimento… Aquela sensação ruim que você desconhece. Eu nem mesmo a conheço, mas espero que ela te conforte esta noite.”, dizia a canção.

Estava, de sorte, abafado naquele fim de tarde (infinita tarde). Uma garoa fina se perfazia junto ao cenário melancólico enquanto eu estacionava meu carro próximo ao bar. Era a semana que antecedia o natal, não que ligasse muito para essas datas, mas respeitava a atmosfera consistente e impregnada de emoção que se fazia em tal época. Garoava… Uma garoa fina e a brisa leve não acalentava o momento em que o Sol se esforçava para aparecer no romper das nuvens opacas… E como sempre, ele veio até mim; como sempre, dizendo coisas que eu raramente era capaz de compreender enquanto pegava meu instrumento no porta-malas do carro e, como habitualmente, eu apenas acenava positivamente e sorria antes de seguir meu curso.

***

Quando se começa uma história assim, normalmente já sabemos o que esperar… Ainda assim eu continuarei, mesmo que ninguém se importe.

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Fiquei imaginando aquele homem saindo, de onde quer que tenha saído, por tantas noites de sexta-feira: um terno cinza (sempre o mesmo) e visivelmente com uma numeração maior do que o concernente a sua estatura; um terno surrado ainda assim digno e justo, mas incapaz de ocultar seu semblante sofrido o qual conotava ter esquecido o que era o simples ato de sorrir. Como sempre, ele me disse algo que não pude compreender, ainda que, em tempo de começar meu trabalho, fingia haver entendido… Talvez pelo fato que não era da minha pessoa ignorar quem quer que se dirigisse a mim.

Com os ombros retraídos e cabeça baixa, esfregava uma mão na outra enquanto falava e, num esforço hercúleo, em vão, tentava estabelecer qualquer tipo de diálogo… Garoava naquele fim de tarde e o Sol rompera o horizonte, deixando-nos apenas o reflexo débil e dúbio da Lua morta que aparecia e desaparecia… Mas jamais se afastava.

Entre uma canção e outra, do outro lado da rua ele me olhava e acenava com a cabeça. Às vezes, quando ia embora, lhe deixava um troco – sei lá porque, creio que por hábito – ao passo que, na maioria das vezes, o deixava na miséria, sem nem um sorriso sequer e até mesmo, quando possível, o evitava.

Eu o vi se recolher num canto, sob uma árvore, quando lhe deram uma marmita… Lembrei-me do cachorro de certa cliente e que tinha atendimento melhor ao passo que era servido pelo próprio garçom. Um “Golden” que desfilava entre os clientes… Era acariciado e enaltecido. Muitos se colocavam a tirar fotos com ele e sua dona fazia questão de exibir certas habilidades que seu belo cão possuía. Pobre homem… Antes tivesse o mínimo de habilidades para mostrar, tal qual aquele formoso cão.

Enfim… No término, quase à meia noite, ao acomodar as coisas no carro, o vi dormindo no banco da praça logo em frente… Pensei que talvez tivesse se esquecido de voltar para casa, pois já era tarde. De sua marmita, apenas o pote vazio de isopor jazia junto à colher de plástico ao seu lado, tais quais algumas folhas secas e desbotadas que esvoaçavam sem rumo certo…

Não importava mais o que eu tinha no bolso e que pudesse deixar com ele; não importava a garoa que caia junto à Lua morta no céu; não importava se estava com a barriga cheia após dar conta da sua refeição e nem mesmo as moedas espalhadas pelo chão, caídas do seu bolso, enquanto o vento revolvia o pouco cabelo que tinha; o pedaço de pano que fingia ser seu terno e o cadarço do sapato social encardido e desbotado.

Lamentei-me por não ser capaz de dividir uma porção, somente uma migalha que valesse, do pouco da alegria que se perfazia em mim… Impotente, imponente e novamente… Entrei no carro e, sem ser capaz de deixar aquilo o que compreendia como mais valioso para mim, pela última vez o vi diminuindo através do retrovisor… Diminuindo até que finalmente desaparecesse.

Uma garoa fina se perfazia junto ao cenário melancólico enquanto eu, seguindo entre as ruas noturnas e envolvido pelas luzes de natal, colocava uma música para rolar e certo de que jamais voltaria a ver aquele homem novamente… “Eu tenho aquele sentimento… Aquela sensação ruim que você desconhece. Eu nem mesmo a conheço, mas espero que ela te conforte esta noite.”, dizia a canção.

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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