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CONVERSAS DE BOTECO – Como um suicida

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Naquela noite, infindável noite, o rei estava deitado em sua cama… Ávido, impotente, irascível… Como alguém que sabe, mas se recusa a crer na própria clarividência. Seus súditos permaneciam incógnitos e apáticos… Desinformados… Deformados de algum modo. No momento, tudo o que governava era a sua própria cama manchada de si mesmo, esmorecido como as flores que enrugavam corroídas pela ferrugem do tempo, oxidadas tal qual a sua pele abatida.

Permanecia inerte, decadente… Mas ainda assim, reluzente, pois sua tristeza sempre fora seu maior encanto e aquele momento, ele sabia: exigiria o melhor que tinha a oferecer. O rei morto, acamado, esforçava-se para se levantar e, em certos momentos, chamava, exalando um hálito putrefato, por alguém que jamais voltaria.

Seus olhos cegos enchiam de lágrimas em qualquer mísero momento de lucidez e finalmente após tanto tempo (mês, ano, século) se levantou, vazio de sentimentos e abandonado por suas lembranças… Não me disse muito, mas reconheci seu remorso em seus olhos desvanecidos… Agraciados apenas pela desgraça persistente. O vento rugia do lado de fora enquanto recobrava a memória… Sei que estava furioso, amigo, mas a decisão foi sua e, portanto, o lamento está fora de cogitação.

Continuando…

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O rei fora traído, e a traição era como uma lança atirada sobre um flanco desprotegido… Quebrando as regras… Algo mortal para um homem leal e de puro coração – um nobre cavaleiro, ou apenas um mercenário… De pequeno infante a Rei que reinava com seu cetro que, no fim, lhe serviu apenas como muleta.

Na manhã seguinte, antes que o Sol pudesse aparecer, o rei estava à margem de uma praia, o silêncio era pleno, até as batidas de seu coração podiam ser ouvidas a distância, mas ninguém estava lá para ouvir. O rei agora não passava de um simples homem sozinho e destemido (pois não havia mais o que temer), solitário de vida e abandonado pela razão. As ondas tocam, impiedosas, seus pés, mas não existiam pés. O vento escorria por seu rosto como o lufar do vento noturno que prenuncia uma tempestade de verão após um longo dia sufocante… Mas não existia pele.

De que adiantou viver, quando se perdeu aquilo o que mais teve importância? De que adianta ser rei, quando não há mais ninguém para governar? “Sem governantes nem governados”, pensou ele por um breve momento, e caminhou em direção ao que sempre temeu encontrar no meio do caminho, ao fundo de toda a história como no ocaso… Na finitude da vida.

Rumo ao desconhecido oceano, seguiu até que não conseguisse mais tocar o chão… Foi o momento mais marcante (ironicamente) de sua curta jornada entre os vagantes. Foi ali que percebeu que o fim, inevitavelmente, se revelará, cedo ou tarde, em todas as possíveis histórias, inclusive aos imortais. Regozijou todas as formas que pareciam dançar à sua frente… Viu a luz. A morte ainda não era bem vinda naquele momento, mas, envolvido pela magnificência sedutora, luz e sombra eram tudo o que lhes restavam… Não cabia mais a decisão, apenas a contemplação.

O destino o consumia lentamente naquele momento vazio… Vorazmente faminto o devorava insaciável. Fora seu maior momento. Cortejou o silêncio e acariciou a face de seu algoz, pois sabia que, como a vida que viveu tão intensamente, as sombras jamais o abandonariam.

***

Certo dia, em que as águas tocavam suavemente a praia junto ao nascer do Sol, as ondas trouxeram até a areia o seu corpo de volta. O tempo se foi para ele e ali passou a ser seu túmulo, um lugar onde terminavam as ondas e começavam as pegadas, sombreadas onde o Sol sempre voltaria a nascer. O próprio vento o enterrou na areia, a própria noite o acalentou em seu momento de solidão. O corpo do rei jamais foi visto novamente, mesmo por aqueles que o amavam e, em muitos momentos, rezavam os crédulos que tinha voltado a ser o cavaleiro de outrora, em seu velho mundo de antigas batalhas e fantasias, onde as coisas realmente aconteciam e faziam sentido.

(Em memória de um velho amigo… Que nem era meu).

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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