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CONVERSAS DE BOTECO – Coisas que deixamos pelo caminho

“E como um vento que sopra carregando para longe as folhas de outono, assim são as memórias: invisíveis e irreversíveis palavras empoeiradas entre os tomos.” (O autor).

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Foi um longo dia sentado e refletindo na base do monte enquanto armava a fogueira lenta e vagarosamente, no parapeito do poente, em tempo quando as últimas ondas se formavam. Ele havia estado em pedaços, coração partido… Bom homem: um homem partido em pedaços buscando um coração… Tanto faz a ordem.

A brisa úmida e nostálgica de primavera renunciava os velhos tempos. Uma sensação estranha o rondava e as palavras pareciam não suportar o que tentava, em vão, pronunciar. Talvez uma garrafa de bom vinho – pensou – lhe ajudasse a aceitar melhor sua incapacidade lamentável, oriunda de uma identidade entusiasta que clamava por finalmente folhear uma obra que fosse sua, para não mais ter que mendigar aprovação de um tolo que reconhecia, fatalmente, sempre que olhava para o espelho.

Lembrou-se de quando colocava barquinhos de papel na enxurrada ao mesmo tempo que olhava a tempestade sendo soprada para longe pela força do vento… Jamais soube onde aqueles barquinhos iam parar. “Farei, pois, um belo barquinho, colocá-lo-ei na sarjeta e o acompanharei até onde for possível…” – pensa enquanto balbucia sorvendo mais um gole de vinho.  Mas naquele dia, não houve tempestade… Aguardou ao lado do fogo, alimentando-o com pequenos gravetos.

Enfim… Meia hora para escrever o parágrafo acima e penso em apagar tudo. Só não creio estar embriagado, pois tive a lucidez de pensar a respeito. Olho para as luzes de natal jogadas na sala, que me propus colocar em minha árvore de livros que jamais li, mas então, lembro que ninguém viria me visitar e penso: “Tanto faz… Odeio natal.”. Os livros continuarão onde estão: empilhados e não lidos.

Por fim, ao lado do fogo, queria ter pronunciado algo que acalentasse sua alma naquele momento. Falar sobre as coisas que deixou pelo caminho… Coisas que, muitas vezes teve que abrir mão: pessoas, lugares e momentos, em prol daquilo que queria alcançar. Lembra-se quando, às vezes, se sentia bem e confortável, no tempo em que adentrava num desses restaurantes beira de estrada: boas companhias, vinhos exóticos, souvenirs… Ficava vagando por horas entre as prateleiras até que o café esfriasse e se tornasse intragável. Viver era mais simples.

Em seguida, fitava a estrada lá fora e pensava nos lugares que ainda não conhecera… Até que, finalmente, atrelava sua mochila nas costas e seguia em frente, caminhando para o fim do dia, apenas para sentir a brisa peculiar do entardecer e observar os caminhões, de faróis baixo, vindo em sua direção. Erguia com dificuldade sua mão e acenava em forma de adeus… Para quem? Jamais saberei.

Ele olhava para o céu e observa o dia morrer. Sabia que tinha um papel a fazer no momento em que Vênus ressurgia junto ao crepúsculo. A luz daquele pequeno e próximo planeta era fiel a ele e enchia seus olhos de luz todas as noites… Lamentava não poder corresponder, pois,  nem sempre (num pranto silencioso) estava lá para recebê-la. Ele agradece a Deus por tê-lo levado aonde ele não queria ir… E retorna de sua divagação que desaparece junto às salamandras do fogo, atendo-se novamente ao crepitar da fogueira.

“E seguiu sem olhar para trás”, gostaria de encaixar aqui essa bela expressão, mas estaria mentindo se dissesse isso, pois, era amaldiçoado com uma memória atroz que o acompanhava com a lealdade de um cão… Ao menos é o que passou seu semblante, num contexto oriundo da luz débil e tremulante, refletindo um rosto distorcido e inquieto. Há tempos roubou um trecho de um texto que outrora escrevi, que pensou ser pertinente para elucidar seu momento, que disserto aqui, e me pediu para citá-lo em sua memória:

“Alguns sonhos morrem e outros nascem. Era o fim de uma estação que, na verdade, se abria para uma nova significação. Tempo de bares e noites embriagado ao som de um velho violão sobrepondo as novas (antigas) canções que entravam para minha história… Foram tempos difíceis e melancólicos, mas que em nada alteraria.” – (trecho de um velho diário) – Engraçado rever a vida que vivo agora retratada como se fizesse parte de um passado longínquo.

Por fim, “por tudo o que custou, no final, não houve preço a pagar. Por tudo o que foi perdido, aquela tempestade levou embora.” (Eye of the storm – Lovett). Talvez algum dia, esteja sóbrio o suficiente para compreender esse relato tão sinuoso e encharcado de desesperança… Enfim… Não hoje.


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About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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