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CONVERSAS DE BOTECO – Belos e malditos

“(…) culpados por viver num mundo feito de tédio e cego para o poder.” (Belos e malditos)

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Como sempre, mais uma terça-feira que parecia percorrer sem grandes surpresas. Enquanto afinava o violão despretensiosamente, pedi ao garçom uma dose de um rude conhaque. Pensava sobre o que escreveria na manhã seguinte acerca do fechamento de ano, enfim, algo que fosse digno desses dias que se fazem, de alguma forma, conclusivos.

Em meio a uma canção e outra, absorto e despercebido pelas pessoas que confraternizavam (e convulsionavam) ao meu redor, divagava sobre o “olho da tempestade”… Da forma como a motricidade do incômodo me aquietava furiosamente a dar mais um passo à frente. De que maneira escreveria e juntaria as palavras para elucidar minhas incertezas, frustrações, desejos e vontade de transformar tantas coisas ao meu redor… Achei egoísta demais da minha parte… “Preciso elaborar melhor essa minha prédica.”, pensei.

Eis que uma cliente em determinada mesa passa a reclamar com o garçom sobre o cheiro de charuto proveniente de outro cliente que se encontrava no lado de fora do bar. O garçom prontamente lhe ofereceu, e aos outros que compunham a mesma mesa, uma outra mesa mais afastada. Aparentemente embriagada, a mesma mulher se recusa, dissertando sobre uma cartilha de direitos e moralidades, oriundas Deus sabe lá de onde, dizendo que pediria a conta caso a questão não fosse resolvida.

O homem do lado de fora percebe a movimentação, se desculpa e, para evitar maior constrangimento, se distancia ainda mais, indo parar onde nem mais podia ser visto. No mesmo instante, me veio à mente um trecho de uma velha música do Lobão: “Um café, um cigarro, um trago… Tudo isso não é vício. São companheiros da solidão, mas isso só foi no início. Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso?”.

Oras… Quem será que estava invadindo o espaço de quem? Desde o surgimento das sociedades, os bares sempre foram locais reservados para os vícios, não foram? De repente as coisas vão se estreitando; o sistema que institui a “droga” passa então a proibi-la punindo-nos pelos “erros” que cometeram… Onde isso vai parar? Fingem combater determinadas substâncias prejudiciais usando o senso moral comum como vigilantes dos supostos bons costumes?

Aquela mesma mulher, “alicerçada” pela lei, sentia-se poderosa ao julgar e discriminar, vociferando artigos e cláusulas como se o sentido da sua vida dependesse das regras e ordens oriundas de seus amos, enquanto, por enquanto, ainda podia se dar ao luxo de bebericar e sair com seu quatro por quatro (o qual a vi estacionar), burlando e escolhendo o que era conveniente, ou não, seguir…

Sou apenas um observador no quintal do mundo e aquela cena me fez lembrar sobre uma analogia a respeito dos sapos: estudos mostram que um sapo colocado num recipiente com a mesma temperatura de sua lagoa, permanece estático à medida que a água é aquecida até o ponto de sua fervura. Naturalmente, o sapo não reage mediante a mudança de temperatura da água morrendo cozido. Em outra instância, o sapo que é jogado no recipiente com água quente, se debate, saltando, imediatamente, para fora, porém vivo!

Já havia me esquecido do texto que elaborava e me senti envolvido pela cena, talvez porque me identifiquei com o homem do lado de fora. Talvez porque me entristeceu pensar que aquele mesmo homem pudesse desistir de seus anseios para se entregar ao mundo hipócrita e de aparências pueris… Talvez porque percebo que os revolucionários, são aqueles que questionam as regras e tomam a frente na hora “H”. “Os últimos a sair; os primeiros a morrer”.

Lembrei-me de uma era de ouro onde o mundo parecia ser mais divertido e desafiador: as mulheres saiam de suas casas para explorar as fronteiras em busca da independência enquanto os preconceitos, em qualquer instância, eram resolvidos ali, no “mano a mano”, no instante em que alguém ousava por o outro à prova; os bares ainda abrigavam transeuntes desorientados que buscavam acalento no submundo onde os problemas pareciam se desvanecer em meio à penumbra. Ao mesmo tempo, do lado de fora, as crianças ainda podiam ser ouvidas gritando e brincando livremente nas ruas enquanto, no SBT, Sr. Madruga baforava seu velho cigarro numa cena fadada a se tornar “politicamente incorreta”.

Hoje em dia vivemos à mercê dos inquisidores dos bons costumes que temem por suas instabilidades emocionais onde, por influência, podem por suas vidas de aparências a perder por um punhado de liberdade a qual jamais estarão prontos para provar. Se iludem ao entregarem paulatinamente a liberdade em troca de suposta segurança; não são servos perante a existência de seus amos, mas fazem existir amos pois decidiram permanecerem servos.

A experiência supera o entendimento… Digo isso, pois, à medida que nos colocamos à prova, nos fortalecemos gradativamente, sem teorias ou fórmulas e dirão: “nasceu assim.”, simplesmente porque a ação supera a teoria. Ninguém determinará o que é certo ou não para mim, a não ser que me convença, pois, ousarei desenvolver a competência para fazer minhas melhores escolhas, preservando sempre, tal como a minha, a liberdade de outrem. A consciência é um princípio básico da mudança, pois, somente assim, somos capazes de nos transformar para melhor, visto que, como diz a velha canção: “eles brincam com fogo e sabem queimar” (o “fogo” representa a consciência nesse caso).

Quanto ao texto de fechamento de ano… Fica para quando o ciclo for concluído. Percebo que ainda tem muito chão pela frente nesses últimos e demorados dias antes do solstício, no calendário do senhor. Por enquanto, seguirei um velho conselho de um amigo: “Em tempos de desesperança, uma fogueira é melhor que nada.”… É o que farei.

“Nós acreditamos que dominamos as palavras, mas são as palavras que nos dominam.” (Alain Rey)

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About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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