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CONVERSAS DE BOTECO – 1964 – Parte 1

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Era fim de tarde quando os dois amigos decidiram se encontrar num bar mediano no centro da zona norte. A música estava baixa e as frestas de Sol entravam pelas bordas das janelas de vidro, se espalhando pela câmara principal como um fractal.

O motivo do encontro era para tratar de alguns projetos futuros e talvez até mesmo jogar um pouco de conversa fora se sobrasse um tempinho. O bar ainda estava vazio por conta do horário; o garçom lhes direciona a uma mesa mais afastada, próximo à varanda encostada numa parede.

- Vai pedir vinho? – Pergunta o mais velho.

- Como sempre… Por favor, – Ao garçom. – Me traz a carta de vinhos?

O homem lhe acena com a cabeça e prontamente lhe oferece a carta.

- Hoje eu não vou de vinho não… Vou de whisky. – Ele então faz uma pequena pausa, olha para o cardápio de bebidas e seleciona o de sua preferência.

- Não quer pedir um também? Vinho é coisa de veado… – Sorrindo.

- De onde tirou essa ideia?

- Olhe ao seu redor… – Apontando para um banner de propaganda de cerveja. – Perceba as propagandas de cerveja: amigos reunidos, felicidade e…? Mulheres… Muitas mulheres. Olhe esta aqui atrás de nós. – Apontando para um totem tamanho real onde um homem e uma mulher pareciam dançar de forma sensual e em destaque, uma garrafa de determinado whisky, sobressaltava-se à imagem junto a dois copos. – Viu só…? Agora me diz: onde tem propaganda de vinhos aqui? Aliás, nunca vi em nenhum bar ou mesmo na TV…

O mais jovem, poucos anos de diferença, se ajeita na cadeira colocando a mão no queixo enquanto seu “escudeiro”, o garçom, prepara-se para lhe fazer as honras, eis que segura em suas mãos um bom malbec extraído diretamente de uma adega climatizada… Ele então começa sua história:

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- Uma vez, pouco mais de um ano, estava tocando num bar em específico, sabe aqueles dias, como hoje, que a noite não parece ser tão promissora…? Final de mês, começo da semana… Enfim. De certa forma aproveito essas noites para tocar o que quero tocar e aproveito meu próprio momento… Desconecto-me do cenário ao meu redor. É como tocar na minha própria sala.

- Sei como é.

O garçom lhe serve a pequena porção para que prove. O jovem acena com a cabeça e agradece enquanto o gentil homem acomoda a rolha num guardanapo colocando-a sobre a mesa e se retira.

- Pois então… Era assim que estava naquele momento: literalmente tocando para mim mesmo e para a equipe do bar que pareciam absortas sobre a minha presença. Até que, de sorte, uma mulher de cabelos lisos e castanhos, que fez questão de soltá-los logo que entrou, seus olhos… Nem me lembro da cor, pareciam castanhos claros, mas sei que olhou diretamente para mim quando entrou; pegou uma mesa próximo de onde eu estava e se sentou. Trajava roupa social: saia, salto e um tailleur… Interessante que, por baixo, uma camisa branca de seda acinturada com um botão aberto… Cara… – Respirou fundo. –  Nem preciso falar mais…

- Um botão aberto? Prestou atenção até nisso?

- Você também prestaria, se estivesse no meu lugar. Enfim… Lembro que, no momento em que vi aquela cena: uma mulher linda como aquela; início da semana; num bar praticamente vazio; roupa social; celular guardado, quer dizer, normalmente a primeira coisa que se observa hoje em dia é o celular sobre a mesa… Imaginei que ela não estava esperando por ninguém, talvez estivesse passando por lá apenas para jantar, enfim… O estranho é que já tocava naquele bar por um bom tempo e jamais a vi por lá. Pensei que ela poderia estar hospedada em algum hotel ali próximo, visto que aquela localidade é bem movimentada em se tratando de empresas, negócios etc.. – Ele olha para a taça e, por algum motivo, um sorriso no canto dos lábios se revela enquanto se deixa tomar por mais um longo gole.

- E aí… Continue! Quer pedir algo para comer? Isca de peixe? – Ele apenas consente com a cabeça enquanto continua olhando e girando sua taça na mesa até que continua:

- Então, após pedir seu prato, vi que ela pediu algo ao garçom e…

- Vai dizer que ela pediu a carta de vinhos?

- Para minha surpresa. Ela folheou e, em dada sessão, discorreu seu dedo sobre uma sequência até apontar para um em específico. Percebe? O jeito que ela selecionou o vinho, conotou claramente que sabia exatamente o que estava fazendo… Até um idiota como você perceberia isso.

- Com certeza… – Enquanto sorria.

- Me diga: qual a probabilidade de uma mulher linda entrar em um bar no meio da semana, sozinha, até onde eu sabia, e pedir uma garrafa de vinho? Naquela hora, pensei até que ela pediria “meia garrafa”, aquela de 375ml, mas não… O garçom trouxe uma bela garrafa de um Carmenère Grand reserva chileno que, sabia, era um dos mais caros do cardápio… Claro que o que me chamou a atenção não foi o preço, mas o bom gosto. Errei até a letra naquela hora… Nem sabia mais o que estava tocando e nem me lembro também.

- Que situação constrangedora. – Disse ele pedindo uma taça ao garçom. – Depois dessa vou acompanha-lo.

- Foi exatamente isso: me senti constrangido e precisava me recompor. Evitei olha-la enquanto comia, mas, de quando em vez, percebia que ela me olhava com o canto dos olhos. Algumas músicas depois, o garçom lhe recolhe o prato ao mesmo tempo em que limpa a sua mesa. Ela solicita outra água e fiquei feliz, pois, deduzi que ela ficaria ali por mais algum tempo, ao menos até terminar sua água, pois duvidava que tomaria aquela garrafa inteira sozinha.

- Ah, cara… Já vi mulheres fazerem cada coisa…

- Enfim… Após o jantar, ela não se fez de rogada em fazer questão de mostrar que estava apreciando a música ao ponto de, sutilmente, aplaudir cada uma que eu tocava. Talvez por educação; para puxar assunto ou uma mistura dos dois, olhei para ela e disse que se quisesse pedir uma música em específica, enfim… Aquela coisa de sempre.

- Sei.

- Ela disse que o repertório estava ótimo e que ficaria feliz em ouvir algo que eu mesmo quisesse muito tocar naquele momento…

- Desconcertante.

- Pois é… Numa situação como aquela, ficou claro que queria saber algo sobre mim ou que, no mínimo, revelasse sobre o que estava eu pensando. O que não negaria a hipótese de tudo aquilo não passar de uma fantasia pretensiosa minha ao ser pego de surpresa naquele cenário tão sedutor. Mas por fim, disse a ela: “tem uma música que gosto muito, usualmente eu não a toco, mas me atrevo nesse momento, pois conota bem o que se passa comigo agora.”.

- Hum… Arriscou alto, heim?

- Pois é…

- E que música tocou?

- Piano bar, Engenheiros do Hawaii. Foi o que veio no momento… Aquele cenário  me chamou muito atenção: uma mulher sozinha, um vinho, o bar e ao olhar mais atentamente, percebi que ela tinha uma aliança no dedo. “O que você me pede e eu não posso fazer…”.

- Hum… Tenso. Posso pedir mais uma garrafa?

- Você não vai terminar sua dose de whisky?

- Não… O vinho está melhor. Não vou misturar bebidas. E aí…? Continue…

- Pois bem… Assim que terminei a música ela não aplaudiu. Parecia hipnotizada no momento em que disse apenas uma palavra: “intenso” e logo em seguida tomou mais um gole.

- “Intenso”… O que ela quis dizer com isso?

- Não me pergunte, mas me senti feliz , pois, era isso o que eu queria passar e, junto a letra… Denotava exatamente aquilo. Já prestou atenção nessa letra?

- Não lembro direito…

- Pois é. Uma parte em especifica diz: “ontem à noite eu conheci uma guria que eu já conhecia, de outros carnavais com outras fantasias… Ela apareceu parecia tão sozinha. Parecia que era minha aquela solidão.”.

- Hum… – Surpreso. – Acertou na mosca. Se fosse eu, sentaria no seu colo, depois dessa… – Sorrindo.

- Então… Mais que isso…

- Como assim? – Apreensivo.

- Ela me ofereceu vinho…

- Que pouca vergonha…

- Danada…

- E você aceitou?

- O que você acha…? É claro! Mesmo não enxergando os dizeres da garrafa, eu a conhecia. No momento em que o conhecido garçom me serve, de costas para ela, com um pequeno riso no canto da boca, tive que desviar meu olhar dele para não rir também… Tomei o primeiro gole e disse apenas: é um excelente carmenère. Veja: não podia dizer o nome do vinho e tudo o mais, pois daria muito na cara que eu havia estudado o cardápio e poderia passar a impressão de que estava querendo me aparecer. Eu posso sim reconhecer uma uva, mas não possuo conhecimento o suficiente para reconhecer as marcas…

- E ela?

- Me olhou surpresa, perguntando sobre meu gosto por vinhos. Disse a ela preferir os argentinos, mas que minha ex-mulher havia me apurado o paladar por gostar mais dos carmenères especificamente. Dentre os chilenos, disse a ela, me atraiam mais os Pinot’s, mas, se me pressionasse, escolheria um bom malbec.

- Bom discurso… Sutilmente mostrou para ela que não estava desperdiçando um bom vinho com você ao mesmo tempo em que citou o fato de ter sido casado, ou seja, se harmonizou com a história dela.

- Foi exatamente essa a intenção. Ergui minha taça e comecei outra música para quebrar a conversa… Na verdade foi uma tática para lhe proporcionar tempo para imaginar o que quisesse. Mulheres adoram imaginar. Quando terminei, já eram onze horas. Agradeci pelo vinho e ela me convidou para sentar e ajuda-la a terminar a garrafa: “É um pecado guardar para tomar depois.”, disse ela.

- Até sei onde isso vai dar.

- Então… Ela me contou algumas coisas sobre a vida dela, sobre alguns dramas que vivia mediante à pressão na empresa a qual prestava serviços… Disse se sentir à vontade em conversar sobre aquilo com um estranho, coisas que usualmente não podia compartilhar no seu meio.

- Ela era daqui da capital?

- Não… Era de outro estado há algumas milhas para o sul. Estava lá por conta de um curso que duraria a semana inteira.

- Resumindo… Você saiu com ela? – Disse ele apoiando o braço na mesa, olhando para o lado como se estivesse perguntando sobre um grande segredo… Como se as poucas pessoas que estavam ali sentadas ao redor estivessem prestando atenção na conversa.

- Calma… Ela estava com uma aliança gigante no dedo, esqueceu?

- E daí?

- Enfim… Ela me contou sobre alguns dramas também que estava vivendo, mediante a sua profissão estar comprometendo sua relação e que, de sorte, acabava por estar “desgostosa”, foi essa a palavra que usou, com sua carreira e casamento.

- E o que disse a ela?

- Nada… Não podemos opinar sobre essas coisas. Por fim, ao perceber que já era hora de fechar o bar, ela pediu a conta, agradeceu e disse que estava num hotel ali perto… Eu conhecia o hotel e disse a ela que se quisesse companhia para um vinho numa noite dessas, era só me ligar ou mandar mensagens. Ela pegou meu número, agradeceu pelas músicas e pela companhia e se foi.

- Termina assim? Pegou o número dela?

- Não… fui embora pensando. Sabe como é… Essas coisas inusitadas mexem com nossa imaginação… No fim ela era casada e tudo o mais.

- Sei como é, mas… Termina assim?

Ele segura sua taça e aperta os lábios um contra o outro, erguendo as sobrancelhas conotando uma expressão de pesar.

- Eis que, na noite seguinte, no momento em que me preparava para começar a tocar num outro bar, chega uma mensagem no celular com os dizeres: “5Ta Generacion Gran Reserva Malbec – 1964”

- E o que significava?

- Pois é… É aqui que começa a história. Mais uma taça?

Continua…

About Santiago Gomes Santiago

Em tempos difíceis, uma boa fogueira é melhor que nada.

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