Home » Sem categoria » Cicatriz

Cicatriz

A cada roupa estendida no varal uma pausa mínima para perceber o silêncio

incomum e vespertino. Às 16h47 do mês de janeiro sabe-se que ventos frescos podem

indicar chuva. Chuvas de verão são passageiras, mas dificilmente enganadoras.

Quando vêm costumam ser intensas, mas sem esgarçar muito o tempo. Chegam,

pesam, varrem a poeira, levam a lama, desfazem raízes, inundam as casas e molham

os pés.

Um respiro. Seguro o ar. Calço os chinelos e olho as roupas no varal. Nada. A

chuva não vem. Um misto entre preocupação e dúvida. Desde quando o céu

desaprendeu a chorar?

Aos poucos o branco acinzentado das nuvens cede lugar ao azul negro e

imenso. Tímidos pontos luminosos disfarçam a luz, uma esfera completa e branca

compõe a cúpula celeste e em algum lugar ilumina o mar.

Há mar na ausência da chuva, o que não há mais é lugar pra suportar a falta.

Falta essa que faz tropeçar, as mãos tocarem o chão e o corpo cair. O cheiro de

dama-da-noite espalhando-se pelo quintal instiga uma fantasia, uma ilusão.

Levanto-me num gesto repentino e me pergunto: amar na ausência? O

intervalo entre o encontro e a espera, o que é se não a morte disfarçada de silêncio?

unnamed

Bailarina desde pequenina. Instrutora de Pilates apaixonada. De ariana mandona pra taurina teimosa. Amante de pessoas e suas histórias.

About Receitas de Viver

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

BIGTheme.net • Free Website Templates - Downlaod Full Themes