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AOS MEIOS

O prazer estampado no rosto era iluminado pelos clarões dos neons de propaganda no alto dos edifícios, vizinhos ao meu. Os gemidos, baixinhos confundiam se aos chiados dos pneus no asfalto molhado, vinte e nove andares a baixo. Os olhinhos fechados e a boca entre aberta;

Alicia tinha como me fazer flutuar após a transa. Ficava deitada sobre mim, esvaindo se, beijava-me o rosto, os olhos orgulhosos do prazer concedido.  Acariciava-me os ombros, o tórax e meu rosto.  Ela levantava a cabeça soberana, me sorria meio tímida, procurava-me os olhos, ficava e me fitava horas ou… Segundos!  Não sei. Olhava-me, com um sorriso inexplicável, porém, de olhos cerrados.

Levantava sobre mim; Ficava admirando seu corpo, os seios pequenos e perfeitos, o coque junto ao ventre, pareciam tufos algodoados prateados pelo tempo.

As pernas de Alicia eram torneadas grossas e fortes, os pés pequenos muito bem desenhados e o sorriso uma pintura.

Caminhava balançante lentamente como gata. Então, sentava se em uma poltrona no canto do quarto, contra a luz bruxuleante de cores azuis e mesclados do amarelo e o rosa, provindos de fora, na balburdia da rua.  Enquanto eu acendia o cigarro, outro prazer. Cochilava em nevoas de fumaça entre pensamentos imperfeitos

Alicia levantava suavemente, cheia de malicia vinha a mim tirando de minha mão o cigarro, dragava-me os lábios para em seguida tragar no meu cigarro, em seguida ia ao banho. Voltando sorrateiramente de modo não atrapalhar meu sono gotejante, metida em meu roupão azul, cabelos molhados, beleza na sua mais perfeita forma, tantas vezes expressadas nas obras de Degas.

O movimento dela ao vestir se quase que um ritualismo minucioso, começando pela bela calcinha preta ponteada de branco e pequenas tiras de rendas em tons de rosa e cinza. Deslizava pelos pés pequenos, tornozelos arredondados, passando por pernas adentro, roçando em suas cochas roliças até chegar ao vê que une o conjunto.

Não deixo de assemelhar Alicia, aos desenhos de Guido Crepax que lia quando garoto. Teus seios pera, ventre saliente, ancas largas médias, bundas morro dois irmãos, lábios largos ondulados e sorriso devastador.

Após a vestimenta, beija-me a testa, o nariz, a boca compondo uma espécie de sinal da cruz me dizendo o quão difícil ir embora.

Ainda cedo aos meios, volto a ser inteiro, voos tão soltos como folhas de papel. Visões insones, inconstantes como eu. Ouço a diva do meu sonho insano, conduzindo-me como, homem! Ensaio um gesto, mas só consigo tatear as rimas e as prosas.

Mergulho nas vagas brisas em tristes tons de cinzas. Vejo o em azul, apesar da gama… Já posso?! Pois tenho meu tempo, minhas asas e meu ritmo.

Vagueio pelo mundo como órfão, sem pai nem mãe. Sem coragem, sem minha cara, sem metade. Um viandante sem sapatos e de dedos puídos pela estrada sem trato. Ah! Alicia… A andorinha que me inspirou voar. A primeira mulher.  Por entre voos excêntricos, vagueio por entre o chão e a terra.

Já passei por vários braços, seios, pelos e anseios. Mas minhas asas prendem-me, me levam soltos sem ar. Alado fugido! Dia ou, sina! Dita me às dores, a diva, a deusa que me cega. Despede-se, vai se embora.

Agora sigo só! De vento em tento, invento um amor que me segue e que ama como eu. Pois nasci nos tempos em que se amava a flor mais linda do jardim! E que por elas, as flores, misturavam se á meses, fundem se confusamente. Semente… Cedo me aos males de amar incondicionalmente como abelhas. Elas já sabem! O quanto estamos prontos?

Enquanto sofremos as torturas sofridas na transmutação necessária. Alado, macaco, amante.

Fustigam-nos com odes de demônios! Hormônios insatisfeitos expelem calor, enquanto que na pele, as dermes espinham como cactos.

Lembrando-nos em todo o tempo; a suculência nas folhas e o arriscado percorrer os centros das flores… Rudes! Cruéis! Não, não há de ser tocada. Aos insistentes uma chance. Porem fica o aviso…

É a nossa perpetuação. Nascemos para amar… Nós! Não sobreviveríamos um só segundo sem a perspectiva divina de se dar um ao outro, do Príncipe e dos Reinos, das belas, adormecidas e avidas. Mesmo que santa, o ninho também é feito de palhas, pode voar ou queimar. Ou ambas!

Pobre Arthropoda, que nada disto podia. Em seu estupor delirante, enquanto Abegão proclama; – Eu, último dos imprecadores de minha intime essência. Rogo!… De agora em diante amais-vos uns aos outros. Sob a pena de não vos amai, mais que já amo, assim como este, fadado ao sofrimento e as chacotas de boteco.

A evolução das espécies estará ameaçada, devido à urgência de outros espécimes.

O amor antropofágico, pois, “o homem é o que come”… Que vida cruel esta a de que fazer em átropo, em prol da sobrevida. E ela a quem tanto devoto não volta, só brinca com meus sentimentos, meus medos e meus testosteronas.

Agora que sem pai nem mãe, vagueio solitário e pensativo. Sinto as vidas que avidamente as devorei. Somente pela fome, sem tempo de absorvê-las, devido ao dito tempo. Ou talvez!  Alicia!…

A vaga me eleva em suas cristas como cobaia, em minha sina de ser o primeiro e único… O sal que carrega em sua crina, é o mesmo que sinto no gosto salgado. Amargo nas lagrimas de quando choro meu fim.

Sem ela me sinto avesso.

mario

Mário Inácio de Oliveira, empresário, poeta e observador comportamental.

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